Inter Alia: peça de Suzie Miller reflete sobre justiça, moral e afeto

De em agosto 6, 2026

 

 

Drica Moraes interpreta a juíza Jessica Parks na peça da dramaturga australiana

 

 

 

Depois do grande sucesso da peça Prima Facie, estrelada por Débora Faslabella, a dramaturga australiana Suzie Miller com Inter Alia, que acaba de estrear no Teatro Vivo, volta a dissecar o universo da Justiça, por meio da trajetória profissional e pessoal da juíza Jessica Parks, vivida por Drica Moraes. Com o objetivo de tornar o sistema judiciário mais humano e sensível, a juíza em seu tribunal é rigorosa ao julgar principalmente casos de violência contra a mulher. No entanto, um acontecimento ocorrido em sua família faz com a Jessica seja obrigada a rever seus princípios éticos e morais.

 

 

A montagem brasileira é dirigida por Rodrigo Portella e, ao lado de Drica, estão Caco Ciocler, que interpreta o advogado Michael, e Caio Cesar Passos, o adolescente Harry, respectivamente marido e filho da juíza. A temporada paulistana se estende até o final de setembro. Não deixe de assistir, sem dúvida um dos melhores espetáculos do ano!

 

 

 

 

Jessica (Drica) conta sua trajetória e tem o marido (Caco) e o filho (Caio) como contraponto

 

 

 

No final da peça de Suzie Miller, saí da sala de espetáculo com a impressão de que seu texto é a melhor definição de Trama, ou seja, conjunto de fios já tecidos, teia. A dramaturga da Austrália conta a trajetória de vida profissional e pessoal da juíza Jessica sem deixar qualquer fio solto, tudo é amarrado de forma coesa, desde sua postura no tribunal frente aos julgamentos de casos de estupro e violência contra mulheres, passando por seus cuidados com a educação do filho único Harry e sua relação afetiva com o marido. Como mulher, Jessica traz um olhar mais humano e acolhedor nos julgamentos de violência contra mulheres, além de defender o aumento de advogadas no magistrado e no alto escalão do poder judiciário. Só uma lembrança: na corte suprema do Brasil há hoje uma única juíza, Carmén Lúcia Antunes Rocha.

 

 

 

Entretanto, um fato envolvendo o próprio filho faz com que Jessica seja obrigada a questionar os próprios princípios éticos, que sempre defendeu com unhas e dentes.

 

 

 

 

 

 

 

 

“Na peça de Suzie Miller, não tem dedo na cara dos homens nem tampouco autocomiseração com as mulheres. Não é sobre quem sai ganhando ou perdendo. Todos perdemos quando não há escuta, diálogo e aceitação. A peça fala da urgência em termos conversas profundas e francas com nossos filhos e filhas, parceiros e parceiras e, sobretudo, entre os homens. Boas e profundas conversas entre mulheres e homens. Que o teatro seja um portal para esta reflexão”, argumenta Drica Moraes.

 

 

 

 

Juíza é obrigada a rever princípios éticos

 

Com uma direção ágil e precisa, a montagem coloca no centro da ação o relato da juíza. Com o palco vazio e totalmente branco, Jessica inicia relatando alguns de seus julgamentos, em que não permite que advogados constranjam mulheres vítimas de estupro ou violência. À medida que ela fala, os outros dois atores vão criando os espaços cênicos (sala do tribunal, a casa da família, o quarto do rapaz, um parque ou um bar de karaokê), de acordo com as circunstâncias relatadas pela juíza. O marido e o filho de Jessica permanecem em cena o tempo todo: há cenas em que eles contracenam com a juíza, mas em grande parte das cenas tanto Michael quanto Harry são o contraponto da fala dela. Impressionante como sem pronunciar qualquer palavra, Caco Ciocler transmite toda a emoção da cena somente com o olhar lacrimejante.

 

 

 

 

 

“Uma obra de arte não tem a obrigação de ensinar nada a ninguém, mas pode.
Ao constatar que falhamos em respeitar a liberdade, a dignidade e a vida das mulheres, talvez a arte contribua em elaborar novos modelos de masculinidade. Mas confesso que acho estranho que algo tão elementar e necessário pareça em algum momento revolucionário”, afirma o diretor Rodrigo Portella.

 

 

 

 

Confesso minha dificuldade de, ao escrever sobre Inter Alia, não cometer a indelicadeza de revelar trunfos e segredos da trama. Spoiler em peças de Suzie Miller deveria ser terminantemente proibido! Mas é de suma importância registrar algo: a autora com este texto retrata os bastidores do judiciário, um setor regido majoritariamente por homens, em que o machismo muitas vezes é tratado com naturalidade. A juíza combate ferozmente esta realidade. Entretanto, com o fato ocorrido em sua família, Jessica entra numa profunda crise pessoal e existencial e fica diante de um dilema ético e moral. E este clima de dúvida e incerteza é compartilhado com os espectadores, que são incitados a refletir sobre justiça, ética, afeto e moral.

 

 

 

 

Drica Moraes em grande momento na carreira

 

 

 

Sem dúvida um espetáculo primoroso, com uma dramaturgia potente que discute temas contemporâneos e de extrema importância para se viver em sociedade no século XXI. Além da direção impecável, destaque ainda para o figurino (os trajes da juíza têm inúmeras funções), a direção de movimento (a cena de luta entre pai e filho traz vários significados), cenário criativo, organizado em cena pelos atores, além de iluminação e trilha sonora sensíveis. A interpretação é o ápice da montagem: Caco e Caio estão vigorosos no contraponto que fazem com a personagem de Drica, que imprime verdade em cada palavra proferida, por mais que a juíza expresse os mais contraditórios pensamentos sobre a vida. Um grande momento na carreira desta brilhante atriz, uma atuação arrebatadora! Espetáculo imperdível!
Saiba mais sobre a montagem por meio da página da peça no Instagram:

 

 

 

 

 
@interaliabrasil

 

 

 

 

 

Roteiro:
Inter Alia. Texto: Suzie Miller. Tradução: Alexandre Tenório. Direção:  Rodrigo Portella. Dramaturgista: Bianca  Ramoneda. Elenco: Drica Moraes, Caco Ciocler e Caio Cesar Passos. Diretor geral de produção: Luciano Borges. Cenário: Rodrigo Portella e Mina Quental. Figurino: Karen Brusttolin. Iluminação: Ana Luzia Di Simoni. Trilha sonora: Federico Puppi. Visagismo: Rose Verçosa. Direção de movimento: Denise Stutz. Fotografia: Robert Schwenck e Annelize Tozetto.. Direção de produção: Nilza Guimarães. Produção Executiva: Clayton Epifani. Realização: Borges e Fieschi Producões Culturais.
Serviço:
Teatro Vivo (274 lugares), Av Doutor Chucri Zaidan, 2460, tel. 11 3430-1524. Horários: sexta e sábado às 20h e domingo às 18h. Ingressos: de R$200 a R$50. Duração: 90 min. Classificação: 12 anos. Temporada: até 20 de setembro.

 

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