De Maurício Mellone em abril 9, 2026
O ator pernambucano Tuca Andrada desde 2004 está imbuído no universo poético do multiartista do Piauí, Torquato Neto. E deste mergulho, em 2023, ele criou o espetáculo Let’s Play That ou Vamos Brincar Daquilo, — título que se refere ao poema de Torquato musicado por Jards Macalé — em cartaz no Teatro Sergio Cardoso, em suas últimas apresentações, só até o dia 13 de abril.
Let’s Play That (Jards Macalé/Torquato)
Quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
Vai bicho desafinar
o coro dos contentes
Num ambiente informal e descontraído (semi-arena), o ator recebe o público, que é convidado inclusive a se sentar em algumas das cadeiras dispostas no palco. Numa conversa entre amigos, Tuca inicia contando que tudo começou quando descobriu o livro Torquatália, de Paulo Roberto Pires, e depois de longa pesquisa criou o espetáculo, um grande mergulho na vida e obra do poeta, cineasta, jornalista cultural, artista plástico e ativista piauiense. Com direção do próprio Tuca em parceria com Maria Paula Costa Rêgo, o que se vê no palco é um misto de show, recital de poesia, aula-espetáculo, debate e stand up. Pura emoção e fruição estética.
Mamãe coragem (Caetano/ Torquato)
Mamãe, mamãe não chore
A vida é assim mesmo eu fui embora
Num palco vazio, um único banquinho e uma infinidade de folhas de papel espalhadas pelo chão (em alusão à obra do poeta), Tuca com figurino branco divide a cena com os músicos Caio Cezar Sitonio e Pierre Leite. Sem o rigor de um texto biográfico, o espetáculo faz um passeio aleatório pela vida e obra de Torquato. Conta de seu início de vida em Teresina/PI, sua mudança para Salvador onde foi para estudar (cursou dois anos de jornalismo) e teve a chance de conhecer inúmeros artistas, entre eles seus futuros parceiros Gilberto Gil e Caetano Veloso. Depois, já no Rio de Janeiro (onde reencontrou os amigos baianos), Torquato dá início a sua multifacetada carreira profissional.
“Na pandemia, entrei de cara no projeto do espetáculo e achei que o caminho seria responder a três perguntas: quem foi Torquato, por que Torquato e como fazer Torquato. O público vai dizer se respondi.
Fui ‘ocupar espaços’, fui entender que ‘uma palavra é mais que uma palavra, além de uma cilada’. E fui ser provocado pela pergunta: ‘por que trocar o sim pelo não se no final é solidão?’
Fui Torquatear por ai”, explica poeticamente Tuca Andrada no programa da peça.
O público, embalado pelas canções e pelos poemas, vê transcorrer no palco uma trajetória muito curta — Torquato tirou a própria vida aos 28 anos —, porém de uma beleza poética inestimável, um grande legado. O ator, muitas vezes, incorpora o poeta, mas também sai do personagem e diz “eu Tuca”, afirmando que Torquato não deve ser visto só como introspectivo, depressivo. Mas como um poeta visionário, um ativista, um artista de mil faces.
Marginália II (G Gil e Torquato)
“Eu, brasileiro, confesso
minha culpa meu pecado
A bomba explode lá fora
e agora, o que vou temer?
Impossível não se emocionar ao estar diante de uma obra artística tão criativa e pulsante. Se muitos desconheciam a importância de Torquato Neto, Tuca Andrada desfez este mistério. De maneira descompromissada e descontraída — os espectadores até dançam ciranda com o ator — Let’s Play That ou Vamos Brincar Daquilo homenageia e reverencia um dos grandes da cultura brasileira. Infelizmente a temporada se encerra na próxima segunda, dia 13/04. Não deixe de prestigiar! Que o espetáculo continue sua turnê pelo país e possa voltar à cidade. Como aperitivo e emoção, fique com um trecho do programa Altas Horas/TV Globo em que Caetano Veloso, ao lado de Gilberto Gil, conta da história da canção Cajuína:
Roteiro:
Let’s Play That ou Vamos Brincar Daquilo. Criação: Tuca Andrada, a partir da obra e vida de Torquato Neto. Direção: Tuca Andrada e Maria Paula Costa Rêgo. Elenco: Tuca Andrada. Músicos: Caio Cezar Sitonio e Pierre Leite. Direção de movimento: Maria Paula Costa Rêgo. Direção musical: Caio Cezar Sitônio. Iluminação: Caetano Vilela. Cenário e figurino: Tuca Andrada e Maria Paula Costa Rêgo. Parangolé: Izabel Carvalho. Fotografia: Ashlley Melo, Matheus José Maria e Jaime Barajas. Produção executiva: Adriana Teles e Tuca Andrada. Realização: Iluminata Produções Artísticas.
Serviço:
Teatro Sérgio Cardoso/Sala Paschoal Carlos Magno (195 lugares), Rua Rui Barbosa, 153. Tel. 11 3882-8080. Horários: sábado e domingo às 18h30 e segunda às 19h. Ingressos: R$ 120 e R$ 60. Vendas: Sympla. Duração: 70 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 13/04/2026.
2 Comentários
Adriana Bifulco
abril 9, 2026 @ 17:25
Muito bom saber que o Tuca Andrada está fazendo teatro e divulgando a obra do Torquato Neto. Confesso que aprendi um pouco sobre ele com sua resenha, tão sutil e que demonstra todo o seu encantamento, querido Maurício, pelo espetáculo tão completo e tão envolvente. Com certeza, uma obra-prima!!
Maurício Mellone
abril 10, 2026 @ 14:48
Adriana, querida:
Muito obrigado.
O próprio Tuca diz no espetáculo q as pessoas lembram do Torquato
só por seu lado introspectivo. no entanto, ele foi um participante
efusivo na Tropicália, deixou uma obra poética encantadora. Enfim, um rico legado
artístico!
Beijos