De Maurício Mellone em fevereiro 10, 2026

Elenco: Rosana Stavis, Mariana Muniz, Walderez de Barros, Jorge Emil, Claudio Fontana, Plínio Soares, Letícia Teixeira e Gabriel Sobreiro
Do mito da feiticeira Medea, filha do rei da Cólquida, originou algumas tragédias. As mais conhecidas são as de Eurípedes, escrita em 431 a.C e a de Séneca, escrita já no primeiro século cristão, em Roma. A montagem que acaba de estrear em São Paulo, no Sesc Consolação, Medea de Séneca, do diretor mineiro Gabriel Villela, é a do escritor e filósofo romano, como explica o diretor assistente:
“Além de ser um grito contra o arbítrio do mundo político antigo, as peças de Séneca têm o que nos dizer sobre a natureza humana, razão por que não são uma pálida sombra da tragédia grega. À pergunta do porquê montar Medea hoje, basta que se observe o mundo ao nosso redor: Séneca está escrevendo sobre nós! ”, esclarece Ivan Andrade no programa da peça.
Nesta versão de Villela, a feiticeira Medea é interpretada por Rosana Stavis, Mariana Muniz e Walderez de Barros, numa participação mais do que especial. Completam o elenco Jorge Emil (Jasão), Claudio Fontana (Creonte), Plínio Soares (ama), Letícia Teixeira (coro) e Gabriel Sobreiro (coro).
Antes do início do espetáculo, o ator Claudio Fontana (que também é o responsável pela direção de produção) entra em cena, com as cortinas ainda fechadas, e recita o prólogo, em que há o histórico do casal Jasão e Medea antes da chegada deles em Corinto, onde a trama terá início:
“É aqui que começa a tragédia Medea, de Séneca”
Outra característica da montagem é a ausência da contracena: os personagens não dialogam, os versos clássicos são recitados de frente para o público. Uma cena que chama a atenção é o decreto do rei Creonte enviando Medea ao exílio: o rei (Fontana) ordena que a feiticeira (Stavis) deixe suas terras e ela está de costas para o monarca e pede um dia a mais para deixar o reino.
Neste momento a direção faz uma referência que emociona: Medea canta um pequeno trecho da canção Basta um dia, da peça Gota d’água, de Paulo Pontes e Chico Buarque, estrelada por Bibi Ferreira, inspirada no mito da feiticeira.
As montagens de Gabriel Villela são sempre marcadas por um visual requintado e inserido no barroco mineiro. Desta vez, além da criativa e sensível direção, ele assina os figurinos, que são parte integrante da narrativa: durante a encenação o elenco usa 27 peças, compostas de sobreposição de tecidos e elementos do cerrado mineiro. O diretor chamou outro mestre para a cenografia, J.C.Serroni, que criou um espaço duplo: o palácio do rei na frente e atrás um palco de circo/teatro mambembe. O próprio artista define seu trabalho:
“Uma encenação onde a natureza apresenta-se representada nos figurinos e na cenografia por meio de vários elementos. Tudo está nas sombras, no escuro, nas cinzas. Para envolver tanta dor, sangue, sofrimento, fúria, ódio, crime, um espaço com tecidos desgastados trazendo a cor de um sangue envelhecido”, explica o cenógrafo.
Outro destaque cenográfico são as máscaras usadas pelos atores (principalmente no início da peça), assinadas por Shicó do Mamulengo e Junior Soares. A iluminação de Wagner Freire e a trilha sonora original de Carlos Zhimber enfatizam o tom dramático e trágico da montagem.
A grandiosidade do espetáculo só é alcançada graças à sintonia coesa e perfeita dos oito atores. E o espectador tem a chance de visualizar a dimensão do mito Medea por meio da interpretação visceral de Rosana Stavis, da presença cênica e coreográfica de Mariana Muniz e do peso dramático da veterana Walderez de Barros. Um espetáculo marcante neste início de ano. Acompanhe a página da peça no Instagram:
Roteiro:
Medea de Séneca. Texto: Séneca. Tradução: Ricardo Duarte. Direção e figurino: Gabriel Villela. Elenco: Rosana Stavis, Mariana Muniz, Jorge Emil, Claudio Fontana, Plínio Soares, Letícia Teixeira e Gabriel Sobreiro; participação especial: Walderez de Barros. Músicos: Daniel Doctors, Luca Frazão e Gustavo Souza. Cenografia: J C Serroni. Máscaras: Shicó do Mamulengo e Junior Soares. Iluminação: Wagner Freire. Trilha sonora: Carlos Zhimber. Maquiagem: Claudinei Hidalgo. Diretor adjunto: Ivan Andrade. Assistente de direção: Gabriel Sobreiro. Fotografia: João Caldas. Produção executiva: Augusto Vieira. Direção de produção: Claudio Fontana.
Serviço:
Sesc Consolação, Teatro Anchieta (280 lugares), Rua Dr. Vila Nova, 245, tel. 11 3234-3000. Horários: quinta a sábado às 20h; domingos às 18h. Ingressos: R$70, R$35 e R$21 (credencial plena). Duração: 80 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 8/3/2026.
2 Comentários
Adriana Bifulco
fevereiro 17, 2026 @ 23:00
Que peça incrível!! Além de ser apresentada por meio de versos que são recitados pelo elenco, tem o filósofo Sêneca como base.
Além disso, conta com o figurino exótico e as máscaras. Obrigada, querido, por nos apresentar uma resenha tão fiel ao espetáculo.
Maurício Mellone
fevereiro 19, 2026 @ 14:39
Adriana:
Muito obrigado, querida.
Sem dúvida MEDEA causa muito impacto,
com autações brilhantes, além do texto,
direção e elementos cenográficos surpreendentes.
Obrigado por sua presença constante por aqui!
Beijos