De Maurício Mellone em junho 10, 2026
A mais recente produção do consagrado e premiado cineasta espanhol Pedro Almodóvar, Natal Amargo, acaba de chegar às salas de cinema do Brasil pouco tempo após sua estreia mundial no Festival de Cannes , em maio último, onde conquistou o prêmio de melhor trilha sonora.
O longa-metragem chama a atenção por seu caráter metalinguístico e autobiográfico, além de discutir as fronteiras entre realidade e ficção. A trama apresenta duas histórias em paralelo: dois diretores consagrados, em crise de criação, resolvem escrever seus novos roteiros tendo como base fatos de suas experiências de vida. O inusitado é que o espectador acompanha o roteiro sendo escrito por um deles, é a ficção dentro da ficção. O elenco é formado por Leonardo Sbaraglia, Bárbara Lennie, Aitana Sanchez-Gijón, Victoria Luengo, Patrick Criado e Quim Gutiérrez.
Uma das cenas iniciais é com o diretor Raúl Durán (Sbaraglia) sentado diante do computador escrevendo. Em seguida, Elsa (Bárbara) toma a frente das ações: em crise de criação após a morte da mãe em plena época de Natal, ela não dá espaço para viver o luto e se afoga no trabalho, escrevendo e dirigindo publicidade. No entanto o corpo dá sinais de estafa: ela tem um ataque de pânico, é auxiliada pelo namorado Bonifácio (Criado) e resolve passar uns dias de folga em sua casa de campo, nas paradisíacas Ilhas Canárias. Ela viaja e de lá convida a amiga Patrícia (Victoria) para também se restabelecer, já que perdeu seu filho pequeno. Corte e Raúl reaparece ao lado de sua agente Monica (Aitana), que pede para se afastar do trabalho para cuidar de sua irmã que está com o filho doente. Neste momento as histórias se fundem e o espectador percebe que Elsa é a cineasta em crise, personagem central do novo roteiro de Raúl.
Em Natal Amargo, Almodóvar retoma o universo de autoficção e propõe uma reflexão sobre o luto, a memória e a perda. Ele mescla fatos da vida real de Raúl — alter ego do cineasta espanhol — com as experiências dos personagens que está criando para seu novo filme. A fronteira entre real e ficção é questionada na trama, principalmente quando Monica lê a primeira versão do roteiro de Raúl: ela identifica fatos de sua vida íntima no trabalho do amigo e se revolta. O filme discute até que ponto o artista pode utilizar a vida das pessoas de seu convívio como matéria prima para sua criação.

Cartaz do filme, melhor trilha em Cannes/2026
Além desta discussão sobre a mistura do real e o ficcional, o espectador acompanha o desenvolvimento das duas histórias, dos dois diretores. Ambos estão focados na elaboração de uma nova obra, já que Elsa consegue romper o bloqueio interno e volta a escrever para o cinema. O que chamou mais a minha atenção é justamente a intenção de Almodóvar de deixar tudo em aberto: nenhuma trama, nem a de Elsa e nem a de Raúl, é finalizada, o espectador é incitado a criar o desfecho dos dramas propostos por eles.
Fotos: divulgação
Deixe comentário