De Maurício Mellone em março 17, 2026
Com texto e direção de Kiko Rieser, espetáculo Nós, os justos, que acaba de estrear no Teatro Itália, discute a cultura do cancelamento por meio de um fato ocorrido dentro de uma grande empresa. Dois funcionários, um homem e uma mulher, que desempenham as mesmas funções, são envolvidos num acontecimento que ganha uma dimensão inesperada dentro da empresa, que passa a viver um clima de julgamento, com acusação, defesa e testemunha.
O ocorrido tem as mais diferentes versões e, com o desenrolar do processo de compliance, os envolvidos mostram as várias facetas de suas personalidades. Cabe ao espectador, ao sair do espetáculo, definir que versão do ocorrido se aproxima da verdade. O elenco é formado por Camila dos Anjos, Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio e Thamiris Mandú.
Num cenário que reproduz a sala de um CEO de uma grande empresa, Mendonça, papel de Pâmio, recebe Toni (Gatti) para uma conversa. O funcionário, com anos na empresa, está nervoso e tenta mostrar um projeto que vem desenvolvendo. No entanto, o chefe com calma informa que ele está sendo desligado. O clima fica tenso e Toni insiste em saber a real justificativa da demissão. Pressionado, Mendonça confessa que o desligamento está associado ao fato que envolve Milena, interpretada por Camila.
A partir de então, o processo de compliance é instalado e Mendonça conduz as investigações. Milena é chamada para dar seu depoimento sobre o ocorrido e o espectador começa a entender que cada um tem sua versão sobre o fato. A próxima a se reunir com o chefe é Shirley (Thamiris), que conta sua visão sobre o que presenciou no fatídico dia. O interessante da montagem é que todos os personagens ficam em cena enquanto Mendonça faz suas inquisições (sempre individualmente).
“O espetáculo procura evidenciar como, nas guerras de narrativas próprias dos tempos da pós-verdade, quase sempre importa menos o lastro com a realidade do que a identificação imediata com a história que é apresentada, sacrificando a complexidade em favor de versões simplificadas e facilmente assimiláveis. Múltiplos sentidos terminam reduzidos a uma (suposta) verdade conveniente”, afirma Kiko Rieser.
Além de todos permanecerem em cena durante o processo de compliance, com o acirramento das discussões cada personagem vai mostrando outro aspecto de seu caráter, como o lado chantageador de Toni, o racismo de Milena, o machismo e o tom manipulador de Mendonça e o lado mesquinho e de intriga de Shirley.
Na trama, ninguém é perfeito ou totalmente bom, o lado obscuro/sombrio da personalidade de cada um vem à tona. O figurino tem função primordial para enfatizar esta mudança: cada personagem vai tirando uma peça do figurino durante o calor da discussão. A iluminação também reforça as posições e defesas dos personagens no embate. E a direção implementa um ritmo eletrizante com o desenvolvimento das discussões, que tratam de temas hoje caros para a sociedade, como diferença salarial entre os gêneros no mercado de trabalho, o racismo, o machismo e a misoginia.
Outra marca da dramaturgia (que a direção enfatiza) é, após o acirramento das falas dos personagens, todos saem de cena e o palco fica todo iluminado. É como se o veredito fosse entregue ao público, para que cada um formule a versão mais verdadeira sobre o fato.
“A peça não entrega respostas nem encerra questões: apenas as oferece dialeticamente para a percepção de cada espectador, convocando à escuta antes da tomada da decisão. E, se juntos construirmos uma mesma versão, poderemos chamá-la de verdade”, arremata o diretor e dramaturgo.
Destaque ainda para a sintonia entre os quatro atores: como ninguém sai de cena, o timing é perfeito, cada um responde ao chefe no tom adequado e na defesa acirrada de seu ponto de vista. O desfecho surpreende e há uma combinação de versão, o que remete ao mote central da trama. Não perca: a temporada se estende até final de abril. Siga a página da peça no Instagram:
Roteiro:
Nós, os justos. Texto e direção: Kiko Rieser. Elenco: Camila dos Anjos, Luciano Gatti, Marco Antônio Pâmio e Thamiris Mandú. Assistência de direção: Letícia Calvosa. Stand-in: Natália Moço. Cenografia: Bruno Anselmo. Desenho de luz: Rodrigo Palmieri. Figurino: Marichilene Artisevskis. Trilha sonora original: Marcelo Pellegrini. Preparação corporal: Bruna Longo.
Fotografia: Ronaldo Gutierrez. Produção: Rieser Produções e Rodri Produções. Produção executiva: Diego Andrade e Julia Terron. Realização: Companhia Colateral.
Serviço:
Teatro Itália (302 lugares), Av. Ipiranga, 344, tel. 11 5468-8382. Horários: sexta e sábado às 20h, domingo às 19h. Ingressos: R$ 90 e R$ 45. Vedas: Sympla. Classificação: 14 anos. Duração: 90 min. Temporada: até 26 de abril.
2 Comentários
Antoune Nakkhle
março 24, 2026 @ 12:23
Assisti e gostei muito do espetáculo e agora, desta resenha, que traduz muito bem o espetáculo. Vale assistir.
Maurício Mellone
março 25, 2026 @ 15:25
Antoune:
Que bom q vc curtiu minha resenha/crítica.
Um dos atores me disse q o público vem aumentando,
a cada semana. Sucesso a eles.
Obrigado por sua visita ao FAVO, volte sempre!
abraços