De Maurício Mellone em setembro 1, 2026
Consagrada e premiada atriz mineira, Grace Passô foi a grande vencedora do Festival de Gramado/2026 . Seu longa-metragem de estreia, Nosso Segredo, levou três Kikitos: melhor filme, melhor fotografia (Wilssa Esser) e melhor direção de arte (Lucas Osório). O filme, uma adaptação da peça teatral Amores surdos da própria Passô, faz uma radiografia de uma família negra de Belo Horizonte/MG: com delicadeza, a diretora retrata como cada membro daquele grupo familiar reage à perda de um ente querido. O diferencial do roteiro, assinado pela diretora, é que tudo acontece sob o olhar de Tutu, interpretado por Efraim Santos, o filho caçula: ele guarda um segredo que, se revelado, pode alterar a vida de toda a família. Com Ju Colombo, Robert Frank, Jessica Gaspar, Marisa Revert, Flip, Juan Queiroz e Gláucia Vandeveld.
As cenas iniciais acontecem no táxi de Gilson (Frank), que conversa com um passageiro. Numa fala mansa e acolhedora, o passageiro solta frases filosóficas que funcionam como prólogo do filme:
“Há coisa que a gente sabe, mas não quer saber.”
“A gente sente saudade. É uma entidade, né? Você não vive sem ela”
Em seguida Gilson chega em casa depois de um dia de trabalho e entra para aquele universo fechado, em que cada membro da família vive sua dor de forma introspectiva, calada. A diretora não dá pistas, tudo fica subentendido, o espectador é incitado a descobrir os segredos e fantasmas que rondam a vida de cada um deles. Grazi (Jéssica) se isola com seu fone de ouvidos, Guto (Flip) não consegue expressar seus sentimentos e Tutu brinca e em seu mundo lúdico é o único que encara tudo com naturalidade. Já Suely (Ju), mesmo abatida, tenta fazer com que os filhos superem a dor. Num diálogo com Grazi, ela confessa: “A gente não fala muito disto. É que ainda me dói muito.”
A trama é construída com silêncios, com gestos interrompidos, com olhares cúmplices e, principalmente, com aquilo que não é dito. Em entrevista para o lançamento de Nosso Segredo, Grace Passô diz que o filme traz a memória vivida: “Quando a gente fala de família, de comunidade, a gente fala de afeto, de intimidade compartilhada ao longo do tempo, a construção deste afeto ao logo do tempo. Isto tudo é ancestralidade”.
Outra característica do filme é a mescla de realidade e o fantástico: o dia a dia da família é composto de atos corriqueiros com acontecimentos estranhos, irreais, como o sangue que escorre pelas paredes e os sons animalescos vindos do andar superior da casa. Para a diretora e roteirista, a casa — que ela viveu na infância — é um personagem:
“Existe uma metáfora também dessa casa sendo reconstruída de alguma forma tem a ver com este momento da família estar se reconstruindo”, afirma Grace Passô.
O clima reinante do filme é de tensão, com a luta individual de cada um dos familiares para superar seus traumas. Leda, personagem vivida por Gláucia Vandeveld, age como um contraponto ao drama familiar; como mulher branca de cabelos loiros, ela fica alheia ao que acontece naquela casa, mas procura se inteirar e desvendar tanto mistério e segredo.
Além de um roteiro instigante, o filme se destaca pela uniformidade e sintonia dos atores. Robert Frank, que inicia e fecha a trama, imprime verdade àquele homem sofrido pela perda do pai. Ju Colombo traz grandeza para a matriarca. Destaque também para as participações de Flip e Jéssica Gaspar e para o talento do garoto Efraim Santos.
Fotos: divulgação
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