O filho de mil homens: filme revela lirismo da obra de Valter Hugo Mãe

De em novembro 6, 2025

 

 

Rodrigo Santoro protagoniza filme de Daniel Rezende inspirado em livro do autor português

 

 

O desafio de transpor uma obra literária para o cinema é imenso. Quando se trata de um romance aclamado pelo público e pela crítica, as dificuldades tornam-se ainda maiores. O cineasta paulista Daniel Rezende — premiado como montador de grandes filmes como Cidade de Deus/2002 e Diários de Motocicleta/2004 — enfrentou o desafio e acaba de lançar O filho de mil homens, inspirado no romance em forma de fábula do escritor português Valter Hugo Mãe.

 

 

Com uma bela fotografia e o registro poético do universo retratado pelo autor português, Rezende, que também assina o roteiro, narra a história de Crisóstomo, interpretado por Rodrigo Santoro, um pescador solitário e calado, de 40 anos, que deseja ser pai. Seu sonho se realiza quando ele encontra Camilo (Miguel Martines), de pouco mais de 12 anos, que acabara de perder o avô que o criou.

 

 

 

 

Crisóstomo (Santoro) e o garoto órfão, papel de  Miguel Martines

 

Com narração da atriz Zezé Motta, a trama começa revelando o cotidiano de Crisóstomo naquela pacata comunidade de pescadores:

 

 

 

“Na pequena vila perto do mar, um homem chegou aos 40 anos e assumiu a tristeza de não ter um filho.”

 

 

 

 

 

A única companhia daquele homem é o boneco de pano que ele mesmo construiu. Para tentar acabar com sua solidão, ele resolve espalhar pela vila bilhetes contendo seu desejo: “Pai sem filho procura filho sem pai.
Um dos trunfos do filme é a forma como o diretor cria a narrativa e apresenta os personagens. Em paralelo à busca de Crisóstomo, outros personagens são introduzidos, como a anã Francisca (Juliana Caldas), rejeitada por toda a comunidade, mas que se relacionava com muitos homens. Ela é acolhida apenas pela médica do lugarejo, vivida por Tuna Dwek, que realiza seu parto.

 

 

 

Rebeca Jamir interpreta Isaura

 

Outra história que corre em paralelo é a de Isaura (Rebeca Jamir): reprimida pela mãe (Grace Passô) e hostilizada pela sociedade conservadora, aceita se casar com Antonino, papel de Johnny Massaro, um rapaz também oprimido pela mãe castradora (Inez Viana) que não aceita sua homossexualidade. Como um grande quebra cabeça, o espectador vai montando as peças e ligando as várias histórias daqueles personagens, até se chegar ao improvável núcleo familiar constituído por Crisóstomo.

 

 

 

 

 

“Todo mundo é filho de um monte de mãe e pai. A gente vem de tanta gente. É tanto sonho que vai passando de um pro outro que ninguém nunca vai estar sozinho. Família pode ser feita de muitas coisas.”

 

 

 

Johnny Massaro é Antonino, oprimido pela mãe

 

É com esta definição de afeto, amor e família que o pescador ensina os mistérios da vida ao menino. Uma cena tocante é o diálogo entre pai e filho, em que o garoto pergunta onde ele aprendeu tudo aquilo. Crisóstomo, sem rodeios, confessa que foi com ele, Camilo. Com lirismo e suavidade, Rezende por meio das relações amorosas construídas pelo singelo pescador, transcende questões árduas da realidade, como machismo, homofobia, capacitismo, discriminação e preconceito.

 

 

 

 

 

Rodrigo Santoro: brilhante atuação

 

Rodado em Búzios/RJ e na Chapada Diamantina/BA, o filme é encantador e envolve o público desde a primeira cena. Além da fotografia deslumbrante e do enredo poético e sensível, a atuação do elenco engrandece ainda mais a produção. No entanto, a participação de Rodrigo Santoro é preponderante para a concepção do filme: sem dúvida, um marco em sua carreira, que o consolida como um dos grandes atores de sua geração. Além das salas de exibição, o filme poderá ser assistido pela Netflix a partir do dia 19 de novembro. Imperdível!

 

 

 

Fotos: divulgação

 

6 Comentários

Silvana Mascagna

novembro 24, 2025 @ 17:10

Resposta

Esse filme é um obra-prima. Ele me tocou profundamente. E sua resenha traduz exatamente a atmosfera do filme. Obrigda por isso. Agora, vou ler o livro. Beijps

Maurício Mellone

novembro 24, 2025 @ 17:42

Resposta

Silvana, querida:
Muito obrigado por sua visão do meu trabalho.
Assim como vc, ainda não li o livro do VHM, já está
na minha lista!
Volte outras vezes, vou adorar!
Beijos

Dinah Sales de Oliveira

novembro 7, 2025 @ 18:54

Resposta

Maurício,
Que bom termos compartilhado um momento tão bonito no cinema.
Sua resenha dá o destaque necessário para cada personagem e descreve com delicadeza o clima do filme, que o público vai poder conferir no cinema ou em casa.
Como vc disse no início do texto, não é tarefa fácil transpor a narrativa do Valter Hugo Mãe para a tela, mas Daniel Rezende foi fiel ao lirismo e intensidade do autor.
Que venham mais resenhas e mais encontros nossos!
Beijos,
Dinah

Maurício Mellone

novembro 9, 2025 @ 09:56

Resposta

Dinah:
Realmente foi maravilhoso assistir a este filme
tão delicado e sensível a seu lado.
Beijos, querida

Adriana Bifulco

novembro 6, 2025 @ 14:44

Resposta

Se foi maravilhoso ler o livro, assistir a esse filme será ainda melhor, depois de ler esta resenha.

Tudo de Valter Hugo Mãe é poético, lírico. Dia 19 irei a conhecer a saga de Crisóstomo pela Tv.

Maurício Mellone

novembro 6, 2025 @ 16:36

Resposta

Adriana,
Você, como leitora voraz da obra de VHM,
com certeza vai vibrar ao assistir as aventuras do Crisóstomo,
agora retratadas em audiovisual. O lirismo e a poética do escritor
português estão ampliados no filme, com uma interpretação sublime
de Rodrigo Santoro.
Obrigado por sua visita constante aqui no FAVO.
Beijos

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