O motociclista no globo da morte: vigoroso solo de Eduardo Moscovis

De em fevereiro 4, 2026

 

 

Com direção de Rodrigo Portella e texto de Leonardo Netto, Eduardo Moscovis discute violência

 

 

Um dia normal, num bar em que um freguês sempre frequenta. No entanto, naquele fatídico dia um outro freguês, além de expressar seu machismo, comete um ato violento, que desencadeia uma resposta brutal e de consequências nefastas. Este o mote central do espetáculo O motociclista no globo da morte, que acaba de estrear no Teatro Vivo depois de uma temporada de sucesso no Rio de Janeiro.

 

 

Sob direção de Rodrigo Portella, o ator Eduardo Moscovis encena o monólogo do dramaturgo Leonardo Netto com maestria. Numa proposta minimalista — palco vazio, somente com uma poltrona e uma mesinha com um copo d’água — Moscovis entra, senta-se e inicia seu relato,  olho no olho com o espectador. Com um texto rico em detalhes sobre a cena descrita, o ator mantém a atenção do público da primeira à última palavra emitida.

 

 

 

 

 

Ator vive um homem comun que presencia num bar um ato cruel

 

 

 

Além da proposta cênica do diretor (“qualquer elemento concreto no palco seria uma distração” para o relato da história), a iluminação chamou muito a minha atenção: a poltrona do ator é fartamente iluminada, porém a luz da plateia não é apagada durante o testemunho de Antonio, o freguês que observa tudo o que acontece no estabelecimento durante seu almoço. Este recurso da luz impede o distanciamento palco/plateia e aproxima ainda mais os espectadores daquele homem comum que conta sobre o ocorrido naquele dia.

 

 

 

De acordo com o dramaturgo, a peça surgiu depois que ele assistiu a um vídeo postado nas redes sociais sobre um fato real de extrema crueldade:

 

 

 

 

 

 

 

 

“Foi muito perturbador assistir ao vídeo e, escrever a peça sobre o fato, também foi difícil, incômodo. A espetacularização e a banalização da violência, exacerbadas com a multiplicação de câmeras e da internet, talvez tenham nos tornado mais insensíveis à violência”, reflete Leonardo Netto.

 

 

 

 

O texto, além do relato da situação vivida naquele bar, relaciona diversos outros casos de violência ocorridos no Brasil e no mundo e questiona a razão do fascínio que psicopatas, criminosos e serial killers exercem sobre as pessoas. Os atritos, guerras e conflitos que fazem parte da história da humanidade também são lembrados e questionados por Antonio: o desumano é parte intrínseca do Homem?

 

 

“O que mais me cativou no texto foi perceber que o protagonista é um homem que tem uma vida correta, pacífica, com quem eu facilmente me identificaria, mas que, assim como seu antagonista na história – um homem vil em todos os aspectos –, pode se igualar a ele ao cometer também um ato violento”, explica Eduardo Moscovis.

 

 

 

 

Eduardo Moscovis: atuação comovente

 

 

O espetáculo é contundente e incita o espectador a refletir sobre a realidade em que vivemos hoje. Texto de impacto, direção precisa e interpretação vigorosa de Eduardo Moscovis. Destaco mais uma vez a iluminação: no auge do relato do ato violento, a luz da plateia se apaga, voltando a se acender logo em seguida. A identificação de Antonio/personagem e espectador é reforçada. O desfecho é surpreendente e intensifica o incômodo que o texto quer provocar na plateia.

 

“O espetáculo acontece na cabeça do espectador. Nesse sentido, o que a gente tem é o ator numa relação profunda e íntima com o espectador o tempo inteiro, do início ao fim do espetáculo”, conclui Rodrigo Portella.

 

 

 

 

 

@omotociclistanoglobodamorte

 

 

 

Roteiro:
O motociclista no globo da morte. Texto: Leonardo Netto. Direção: Rodrigo Portella. Elenco: Eduardo Moscovis. Assistência de direção: Milla Fernandez. Trilha sonoral: André Muato. Iluminação: Ana Luzia de Simoni. Figurino: Gabriella Marra. Estudos visuais em IA: Zezinho Mancini. Fotografia: Catarina Ribeiro.  Produção executiva: João Eizô. Direção de produção: Sérgio Saboya e Silvio Batistela. Produção geral: Eduardo Moscovis e Sérgio Saboya.

Serviço:
Teatro Vivo (274 lugares), Av. Doutor Chucri Zaidan, 2460, tel. 11 3279-1524. Horários: sexta e sábado às 20h  e domingo às 18h. Ingressos: R$150 e R$75. Vendas: Sympla. Duração: 60 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 29 de março de 2026.

 

 

 

 

2 Comentários

Imad Nasser

fevereiro 4, 2026 @ 16:05

Resposta

Gostei muito da peça, estimado Mellone. É um raro caso em que texto, atuação e direção funcionam, para a alegria e o prazer dos espectadores. Viva o teatro que desperta refexões sobre o estado do mundo.

Maurício Mellone

fevereiro 4, 2026 @ 18:36

Resposta

Imad, querido:
Sim, este monólogo ainda mais, provoca realmente reflexões profundas
sobre a Humanidade. Na resenha indago, como o personagem da peça,
se o desemano é uma característica intrinseca a nós seres humanos…
Obrigado por sua visita e comentário.
Beijos

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