De Maurício Mellone em junho 11, 2026
O dramaturgo, escritor e roteirista norte-americano David Mamet escreveu a peça Oleanna em 1992 e dois anos depois a dirigiu no cinema, mas parece que foi concebida atualmente. O tema central — assédio e relações de poder no meio universitário — reflete questões contemporâneas, dessa sociedade do cancelamento.
Com direção de Daniela Stirbulov, a montagem que está em cartaz no Teatro Vivo/ Espaço de Convivência traz no elenco Velson D’Souza na pele do professor universitário John e Julianna Gerais, que interpreta Carol, a estudante que sente dificuldade no curso e procura o mestre para tirar suas dúvidas. Um encontro no gabinete do professor que inicialmente poderia ser corriqueiro e amável torna-se um duelo, com disputas de versões, denúncia de assédio e disputa de poder.
Num cenário criativo e de poucos elementos, a cena inicial é no escritório de John, que está prestes a receber uma promoção acadêmica. Ele aceita receber Carol, que se mostra insegura e com dificuldade diante do conteúdo do curso. Uma conversa voltada ao teor acadêmico toma um rumo diametralmente oposto. Carol sente-se agredida e resolve formalizar uma denúncia de assédio, sexismo e comportamento inadequado do professor.
A plateia de apenas 40 espectadores, disposta em corredores opostos, frente a frente, com o espaço cênico ao centro, é cúmplice de toda a ação. Num segundo encontro, após a abertura das investigações, há mudança radical de comportamento. Acuado e em desespero com o provável desligamento da universidade, John procura dar sua versão dos fatos e afirma que nunca teve intenção de agressão. Já Carol, dona de si, alega machismo, desigualdade nas relações entre homens e mulheres e discriminação de classe social no meio universitário. O público é exposto a várias versões sobre o fato e é incitado a tirar suas próprias conclusões.
“A peça de Mamet questiona quantos lados pode ter uma mesma verdade. Em uma encenação imersiva, duas plateias frente a frente transformam o público em um júri silencioso, posicionado no centro da tensão. Na montagem, radicalizamos a discussão sobre a fragilidade da comunicação e as relações de poder dentro de um sistema educacional. Uma experiência cênica visceral que confronta certezas e desloca perspectivas”, argumenta a diretora Daniela Stirbulov.
Além da direção precisa e dedicada à atuação, destaque para o desempenho tanto de Velson (que também assina a tradução da peça) quanto de Julianna: ambos têm a chance de mostrar facetas díspares de seus personagens. O desfecho é surpreendente e o espectador sai do teatro com a incumbência de definir o destino daquele professor e daquela estudante. Mais informação na página do espetáculo no Instagram:
Roteiro:
Oleanna. Texto: David Mamet. Tradução: Velson d’Souza. Direção: Daniela Stirbulov. Elenco: Velson D’Souza e Julianna Gerais. Assistente de direção: Enzo Malaquias. Direção de produção: Fabio Camara. Cenografia: Carmem Guerra. Adereços: Rebeca Oliveira. Figurino: Allan Ferc. Iluminação: Fran Barros. Fotografia: Caio Gallucci. Produção: Braza Produções e Lugibi Produções. Realização: Braza Produções e Espaço Co.Lab. Idealização: Velson D’ Souza.
Serviço:
Teatro Vivo (40 lugares), Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460, tel. 11 3430 1524. Horários: sexta e sábado às 20h e domingo às 18h. Ingressos: R$ 100 e R$ 50. Vendas: Sympla. Duração: 70 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 19/07/2026.
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