ordem, sem lugar, sem rir, sem falar

De em julho 27, 2011

Livro de Leusa Araujo retrata os anos de chumbo da história do Brasil

A jornalista, escritora — e minha amiga de longa data — Leusa Araujo nos brinda com mais uma obra encantadora. No ano passado ela publicou o livro de contos náufragos emergentes- seis histórias ordinárias, pela Opera Prima Editorial, e dessa vez volta a se dirigir ao público juvenil — atingindo a todos nós— com ordem, sem lugar, sem rir, sem falar, pela Editora Scipione. Sob o olhar do garoto Doca, a história relata os chamados anos de chumbo do Brasil, mas especificamente de 1968 a 1972, em plena ditadura militar.
No entanto, não pense que o livro é um relato histórico (pesado ou enfadonho) sobre momentos difíceis que enfrentamos naquela época. Os fatos históricos são apresentados de maneira sutil, por intermédio do cotidiano de uma família de classe média da zona leste paulistana. Doca, o caçula, e Elisa são filhos de um casal típico dos anos 60: ele um capitão, homem autoritário e centralizador, e ela uma mãe oprimida, que só ‘respira’ nas ausências constantes do marido. Logo no início a autora avisa que infelizmente a história não é uma fantasia, mas a mais pura verdade.
Porém, essa realidade dura, com o autoritarismo infiltrado em todas as relações (familiares, educacionais e sociais) vai sendo mostrada aos poucos, de forma subliminar. Tanto que Maria José Silveira na contracapa diz que se trata de uma obra ardilosa: “O livro nos pega pela mão e, como quem conta apenas a vida de um menino comum, vai nos mostrando a maneira como a opressão da sociedade em que vivemos se reproduz no cotidiano de nossas famílias, nossos vizinhos, nossa escola”.
Leusa deve ter realizado uma minuciosa pesquisa e/ou vasculhado muito sua memória para reproduzir com fidelidade a sociedade brasileira dos anos 60/70. Mas como seu foco são os jovens de hoje, ela delicadamente explica alguns nomes, termos ou situações da época, como sapato Vulcabrás, lojas Mappin, o militante de esquerda Carlos Marighella, o refrigerante Crush e a Expoex (Exposição do Exército) ou ainda o sucesso musical Pata Pata e jogadores famosos, como Ademir da Guia e Leivinha.
O leitor é absorvido pela cativante história de Doca (um garoto que aos poucos se revela frágil e dependente de medicamentos fortes), de Elisa (que como toda a adolescente enfrenta o pai dominador) e pela história de vida da mãe, que à sua maneira também consegue realizar-se, mesmo que às escondidas.  E como pano de fundo da vida dessa família, a realidade do Brasil daquele período histórico é brilhantemente retratada. O bedel da escola (um tirano aos moldes dos militares do poder), os vizinhos que foram obrigados a se mudar rapidamente depois de denúncias, os ‘homens de terno’ e o atentado da casa amarela colocam o leitor no clima da ditadura militar brasileira.
ordem, sem lugar, sem rir, sem falar, em referência a uma brincadeira infantil muito popular nos anos 60, ajuda-nos a refletir sobre uma época crucial da história brasileira.

Marcos Zaccharias Publicitário
Site Aplauso Brasil, especializado em Teatro
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8 Comentários

Letícia

setembro 23, 2015 @ 15:57

Resposta

Sou Letícia e li o livro e amei queria saber se vai ter o 2 livro.

Maurício Mellone

setembro 24, 2015 @ 11:39

Resposta

Letícia,
a Leusa é uma escritora (e jornalista)
que tem uma produção intensa. Ela acaba de lançar nova obra.
Sobre a continuação (um segundo livro na mesma linha),
não tenho esta informação.
Obrigado pela visita
bjs

aline

agosto 10, 2011 @ 14:56

Resposta

Fiquei muito curiosa pra ler este livro!!!

Maurício Mellone

agosto 10, 2011 @ 15:49

Resposta

Aline:
Vc, uma leitora contumaz de tudo o que se refere aos anos 60, não deve
mesmo deixar de ler a obra da Leusa. Bem legal a visão do garoto sobre
a repressão em que vivemos naquela época.
bjs

leusa

julho 28, 2011 @ 02:23

Resposta

Maurício, obrigadíssima pelo carinho. O Doca conta um pouco da história de todos nós, não é? Você,querido amigo de tantos anos, dedica parte do seu tempo lendo o meu juvenil, sou muito agradecida por isso. Pra sempre, beijos, lê

Maurício Mellone

julho 28, 2011 @ 11:11

Resposta

Leusa:
Com certeza, o Doca é nosso contemporâneo! Tive duas experiências distintas (quase inclui na resenha, mas achei q não era o espaço);
nasci aqui em Sampa e fiz dois anos do primário (hoje ensino fundamental) na Escola Americana/Mackenzie. Nas manifestações estudantis
e nas famosas brigas entre USP e Mackenzie, nós crianças éramos dispensados. Gostava, mas havia um clima de terror no ar.
Depois fui para o interior e estudei em escola pública; o que vc relata na escola de Doca eu vivi também. Mas lá parece q o mundo
era outro, não ficávamos sabendo de nada dos movimentos sociais da capital e do Brasil! rsrsrs
Adorei seu livro, parabéns!
bjs

leusa

julho 28, 2011 @ 16:35

Resposta

mauricio, com todas as pessoas que conversei o sentimento foi o mesmo: cada um tem uma história importante pra contar. Imagina ser dispensado da aula por conta das porradas dos anticomunistas!

Tenho uma enorme compaixão pelas crianças que foram usadas e abusadas pelo terror de Estado na ditadura!

beijos

Maurício Mellone

julho 28, 2011 @ 17:51

Resposta

Leusa:
O pior q criança não tem noção do que se passa no maluco mundo dos adultos!
bjs

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