De Maurício Mellone em agosto 13, 2025
Assistir a uma peça de Shakespeare é como beber da fonte do teatro. Foi o que o dramaturgo e diretor Newton Moreno com a Heróica Companhia Cênica fizeram: partindo do clássico do bardo, Rei Lear, eles mergulharam na realidade brasileira, com foco nas discussões sobre meio ambiente, e chegaram ao espetáculo ORioLEAR, que faz as primeiras apresentações no Itaú Cultural, com temporada curtíssima, só até domingo, dia 17 de agosto.
Com elenco formado por Leopoldo Pacheco, Ronny Abreu, Jorge de Paula, Simone Evaristo, Sandra Corveloni, Michelle Boesche e José Roberto Jardim, a montagem mostra Lear (Pacheco), um latifundiário e ex-grileiro, em sua festa de 80 anos em que resolve dividir suas terras com as três filhas. As duas mais velhas, ao lado de seus maridos — Goneril e Albano (Sandra e Jorge) e Regina e Conrado (Michelle e Jardim) — só fazem mesuras e elogios ao pai e recebem cada uma a sua parte da herança. Já a caçula, Cordélia (Simone) não consegue expressar seu verdadeiro amor ao genitor e é deserdada, sendo acolhida pelo Indígena (Ronny). A partir daí tudo é envolto em artimanhas e lutas pelo poder absoluto das propriedades do velho Lear.
O prólogo é com a festa dos 80 anos do fazendeiro, realizada na frente do palco, com direito a cena de plateia, e com as cortinas fechadas. A partir daí, as cortinas se abrem e o mote central da história começa, num cenário cru (um grande painel ao fundo do palco em tom de barro) e um único elemento cênico (uma árvore que se transforma em vários elementos).
O latifundiário como era praticamente o rei/dono da região passou a ser chamado pelo nome do rio, o que é inaceitável para os povos originários. Para eles, a ‘posse’ do nome do rio pelo homem causou sofrimento a seu povo e os infortúnios só cessarão quando o nome do rio for devolvido.
No entanto, depois de ter dividido as terras, Lear passa a viver parte do tempo com Goneril e outra parte com Regina. Mas elas aos poucos retiram dele seus jagunços/soldados e iniciam a luta pelo poder total das terras. Sem posses e isolado, ele fica atormentado com as decisões que teve e parte pela floresta, acompanhado apenas pela irmã A Tonta (Simone).
Diante da ganância e usura de Goneril e a gastança e descontrole financeiro e moral de Regina, Cordélia parte para salvar o pai, numa disputa vã. O Indígena não só ampara o velho Lear, como defende a Natureza, a razão de vida de todos nós. A luta pela terra é sangrenta, para todos.
“Shakespeare é um grande rio, parece beber em todas as águas do mundo. Assim também é seu texto Rei Lear. A sucessão, o trono, os golpes, as heranças. Seguimos alguns percursos e afluentes para investigar esta obra. Lear desce do salto alto e aprende a ser humano após seu erro de julgamento. Lear quis ser mais que a natureza, agora tem que aprender com ela, se ainda quiser viver neste planeta. Se ainda der tempo”, afirma Newton Moreno no programa da peça.
A montagem envolvente de Newton Moreno (texto e direção de sua autoria) traz o eixo central do clássico de Shakespeare numa discussão de temas atuais e prementes como a devastação do meio ambiente e a luta pela demarcação de terras. O rap cantado pelo elenco Nada vem do nada sintetiza esta discussão. Outros destaques ficam para o figurino que acompanha as transformações dos personagens (como exemplo, os trajes do latifundiário que vão até o rei nu), assim como o cenário e adereços, que também se modificam e constituem elementos narrativos fundamentais — exemplo da árvore, que passa a ser trono, depois mata devastada e embarcação. Um vídeo ao final com a ministra Marina Silva defendendo a Natureza também deve ser ressaltado.
E o ápice fica para o desempenho do talentoso elenco, que atua em sintonia perfeita. Único senão é para a duração do espetáculo, que poderia ser mais enxuto. E a crítica mesmo é para a temporada tão exígua: apenas três semanas em cartaz para uma montagem tão grandiosa? Que venham outras temporadas duradouras. Sigam a peça em:
@heroicacompanhiacenica
@escritório.das.artes
Roteiro:
ORioLEAR. Livre adaptação de Rei Lear, de William Shakespeare. Direção e texto: Newton Moreno. Tradução: Marcos Daud. Pesquisa e assistência: Almir Martines. Elenco: Leopoldo Pacheco, Ronny Abreu, Jorge de Paula, Simone Evaristo, Sandra Corveloni, Michelle Boesche, José Roberto Jardim. Direção de movimento: Erica Rodrigues. Preparação de atores: Kátia Daher. Espaço cênico: Marcelo Andrade, Zé Valdir e Newton Moreno. Iluminação: Equipe A2 | Lighting Design. Desenho de luz: Wagner Pinto. Trilha sonora: Caçapa. Figurino e visagismo: Leopoldo Pacheco. Adereços: Zé Valdir. Consultoria Shakespeareana: Ricardo Cardoso. Fotografia: Ronaldo Gutierrez e Leekyung Kim. Produção audiovisual: Gatú Filmes. Coordenação de produção: Náshara Silveira. Direção de produção: Alexandre Brazil. Realização artística e gestão de produção: Heróica Companhia Cênica e Escritório das Artes.
Serviço:
Itaú Cultural (224 lugares), Avenida Paulista, 149, tel. 11 2168-1777. Horários: de quinta a sábado às 20h e domingo às 19h. Ingressos: gratuitos. Duração: 150 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 17 de agosto.
4 Comentários
Imad Nasser
agosto 21, 2025 @ 14:22
Acabei assistindo ao espetáculo na quinta-feira passada. Gostei bastante. Minha única ressalva é quanto à duração. Tomara que reconsiderem o tempo numa futura temporada. Valeu, mais uma vez, pela dica, estimado Maurício Mellone.
Maurício Mellone
agosto 21, 2025 @ 14:30
Imad: Querido,
tb achei muito longa a peça. Como a dramaturgia e a direção
são assinadas pelo Newton Moredo, não há um olhar com certo
distanciamento para a produção; se houvesse, talvez teríamos
um espetáculo mais enxuto.
Obrigado pela visita, volte sempre. Adoro sua visão sobre as
peças teatrais.
Bjs
Imad Nasser
agosto 13, 2025 @ 13:12
Estimado Mau Mellone: fiquei com mais vontade de assistir à peça depois de ler sua resenha, e preciso me apressar, já que a temporada é tão curta. Com Shakespeare como inspiração e um elenco qualificado, não podemos perder essa chance de ver o espetáculo. Viva o teatro!
Maurício Mellone
agosto 14, 2025 @ 15:21
Imad:
Obrigado, querido.
Vc programe-se, pois não há ainda previsão de nova
temporada, segundo o ator Leopoldo Pacheco em informou.
Tomara q vc consiga assistir: uma grande e bem cuidada produção,
merece que muita gente assista.
Obrigado por sua visita, volte sempre!
Bjs