De Maurício Mellone em junho 2, 2026
Há muito não via um saguão de teatro tão agitado, com as pessoas ansiosas esperando numa fila imensa o horário para entrar na sala de exibição. Tudo por causa do carisma em dose dupla: da rainha brasileira do rock, a paulistana Rita Lee, e da atriz, também paulistana, Lilia Cabral, que sozinha em cena retrata a roqueira no espetáculo Rita Lee – Balada da Louca, idealizado e escrito e por Guilherme Samora.
Com direção de Beatriz Barros, a peça tem como base o livro Rita Lee: Outra autobiografia, em que a artista, após ser diagnosticada com câncer de pulmão, resolve registrar o passo a passo de sua luta contra a doença. No palco Lilia revive os últimos anos de vida da roqueira, num tom que mistura dor, amor, ironia e sarcasmo, bem ao estilo de Rita Lee. Espetáculo de muita emoção, que permanece no Teatro FAAP até início de agosto.
A peça começa com a atriz segurando uma batuta e cantando Não quero luxo, nem lixo:
Como vai você?
…
Não quero luxo nem lixo
Meu sonho é ser imortal, meu amor
Não quero luxo nem lixo
Quero saúde pra gozar no final
Num cenário de poucos elementos que representa um ambiente caseiro, Rita/Lilia diz que está ali por amor aos filhos e netos e ao Roberto. E, desta forma despojada, começa a relatar sua relação com a doença, que começou em plena pandemia da Covid 19, ansiosa pela chegada da vacina, sua alegria em poder tomar a primeira dose, mesmo tendo reação, com fortes dores no braço. Foi depois da segunda dose que ela resolveu procurar sua médica: após vários exames veio o diagnóstico de câncer. A partir deste instante, o relato passa a ser minucioso sobre cada passo do tratamento.
“A Rita é apresentada da forma mais humana possível. Ela fala de finitude, de amor e da doença com uma coragem ímpar, sem dramas e, até mesmo, com humor. Só ela conseguiria algo assim”, confessa o autor da peça Guilherme Samora, que além de amigo da roqueira foi o editor de seus livros.
A luta de Rita contra a doença fica evidente no monólogo; ela se submeteu a todos os procedimentos, teve melhoras, recaídas, mas o humor esteve sempre presente. Fiquei surpreso com a reação da plateia: se no início as pessoas se divertem com a maneira jocosa como ela se refere ao problema, aos poucos há um silêncio profundo em função da dor causada pela doença. Todos são tomados pela emoção — alguns chegam a chorar — com a evolução da moléstia e a piora do estado de saúde de Rita.
Impressionante o domínio de cena da atriz: não tendo com quem contracenar, Lilia está plena no palco, tem a imensa plateia em suas mãos!
Para a diretora Beatriz Barros, que pontua de forma sutil e precisa as mudanças de cena, foi importante trazer para o palco um espaço de intimidade, em que “existe uma reflexão filosófica sobre temas tão importantes como a morte, o envelhecimento e a relação com a espiritualidade”.
Além da emocionante interpretação de Lilia Cabral para uma personalidade tão carismática e amada pelo público brasileiro — a atriz deixa a personagem de lado por um breve momento e diz que se a Rita não chorava, ela chora, e muito! —, o espetáculo também se destaca pela trilha sonora, iluminação e cenário, que são elementos essenciais para a condução narrativa. Fãs de Rita Lee e amantes do teatro, não deixem de assistir. A temporada se estende até 09/08. Mais informação, acesse a página da peça no Instagram:
Roteiro:
Rita Lee: Balada da Louca. Texto: Guilherme Samora. Direção geral: Beatriz Barros. Elenco: Lilia Cabral. Direção musical: Dani Nega. Figurino: Walério Araujo. Visagismo: Leo Pacheco. Iluminação: Ana Luzia Molinari de Simoni. Cenografia: Pedro Levorin. Fotografia: Cauê Moreno e Miro. Direção de produção: Edinho Rodrigues e Vanessa Campanari. Realização: Brancalyone Produções e Pipoca Comunicação
Serviço:
Teatro FAAP (477 lugares), Rua Alagoas, 903, tel. 11 3662-7208. Horários: sexta e sábado às 20h e domingo às 17h. Ingressos: de R$ 180 a R$ 25 (Cliente cartões Elo + 1 acompanhante: 10% de desconto). Duração: 70 min. Classificação: 12 anos. Temporada: até 9 de agosto.
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