Só depois entenderei: romance de Vidal Porto sobre um amor impossível

De em agosto 27, 2026

 

 

 Este é o quinto romance  de Alexandre Vidal Porto, lançado no primeiro semestre deste ano

 

 

Lançado pela Companhia das Letras no final do primeiro semestre deste ano, o romance Só depois entenderei, de Alexandre Vidal Porto, retrata uma relação amorosa. No entanto, a obra foge dos padrões habituais de um relato sobre o amor entre duas pessoas. Segundo diz o narrador, logo nas primeiras páginas, a relação que viveu é o que se pode dizer de “um amor impossível, o que poderia dar certo, mas ficou encruado.”

 

 

A trama se passa em meados dos anos 1990, quando um diplomata brasileiro morando em Nova York começa a se relacionar, pela internet, nas salas de bate-papos, com um homem casado com dois filhos e um enteado. De um encontro somente para sexo, tudo se transformou numa paixão avassaladora, com encontros espaçados e sigilosos durante décadas até chegar à obsessão e o brasileiro entender que esta experiência nunca daria mesmo certo.

 

 

 

Vidal Porto é diplomata desde os anos 1990 e hoje vive na Holanda

 

A literatura brasileira é farta de escritores que durante toda a vida souberam conciliar a carreira diplomática com a produção literária. Assim como Aluísio Azevedo, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa e Vinícius de Moraes, dentre outros, Alexandre Vidal Porto é diplomata de carreira desde a década de 1990 e hoje vive em Amsterdã/Holanda. Paulista nascido em 1965, formou-se em direito no Ceará e já morou e trabalhou em diversas cidades pelo mundo. Seus livros sempre trazem referência à comunidade LGBTQI+: sua estreia literária foi em 2005 com Matias na cidade. Depois vieram Sergio Y. vai à América/2012, Cloro/2018 e em 2023 lançou Sodomita, vencedor do Prêmio Mix Literário do Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade.
Só depois entenderei é seu quinto romance.

 

 

 

 

 

Com 168 páginas, o livro é composto de 86 capítulos curtos, alguns com apenas um parágrafo, mas com considerações profundas e filosóficas:

 

Se não for para ser livre, melhor morrer. Sem autonomia para se defender, melhor estar morto, porque, quem sobrevive por acaso, dependendo da caridade da sorte, já traiu o próprio talento, amaldiçoou o que se é.”

 

 

 

 

 

Sempre na primeira pessoa, a obra é como se fosse um diário da vida do narrador; no início, encantado com a internet, ele entrava nas salas de bate papos com o pseudônimo de Lucky 123. Foi assim que começou se relacionar com WhyNot 444. O interessante é que a partir de então o autor não identifica ninguém pelo nome próprio. O narrador sempre se refere a ele mesmo como o amante e o outro é ele ou o amor impossível. A esposa, os filhos e, posteriormente, o homem com quem mantém uma relação fixa e duradoura — o amor principal —, nunca são chamados pelo nome.
Este recurso usado por Vidal Porto talvez seja para tornar o relato o mais universal possível, sem especificar a biografia das pessoas e, desta forma, refletir sobre o papel que cada um exerce nas relações amorosas.

Entretanto, o narrador conta desde os primeiros encontros (sigilosos), o início da paixão, a carreira de escritor do amado, as mudanças de endereços em razão de sua missão diplomática, as poucas viagens que fizeram juntos, até a relação se tornar obsessiva e acontecer a última transa.

 

 

Não éramos mais um casal, nossa relação acabara, mas ainda assim eu queria vê-lo. No edifício da revista, no chão do escritório dele, transamos. Foi desesperado, um esplendor tenebroso de almas que precisavam se fundir. No dia seguinte, ele me ligou, disse que havia contado tudo de nós para sua mulher e me pediu que não o procurasse mais. Obedeci.

 

 

 

Este término formal da relação acontece praticamente na metade do livro. A partir de então, a narrativa passa a ser menos sobre a perda da pessoa amada e muito mais, passados os anos, sobre a reflexão e avaliação do relacionamento amoroso, de tudo o que viveu com aquela pessoa:

 

 

Havia anos que eu abandonara qualquer ilusão de retomar uma relação romântica com ele. Ainda assim, a presença dele ou o pensamento nele tinham o poder de me transportar para momentos sublimes. Esse paradoxo que eu queria solucionar.”

O impeditivo não era o casamento. O que impedia e continuou impedindo era a falta de vontade. Ele não teve vontade.”

O investimento emocional que eu tinha feito nele estivera baseado num entendimento equivocado. Confundi não poder com não querer.”

Nossa amizade não é boa para mim.”

 

 

 

Nessa análise do que o autor chama de amor impossível, o personagem avalia os próprios sentimentos e assim justifica o título da obra, só depois entenderei.

 

Numa manhã luminosa ele passou por mim de bicicleta. Podendo parar, eu segui em frente. Para seguir em frente, eu olhei para trás.

 

 

 

 

 

 

 

Ficha técnica:
Título: Só depois entenderei
Autor: Alexandre Vidal Porto
Editora: Companhia das Letras, 168 pgs
Preço : R$ 79,90

 

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