De Maurício Mellone em novembro 25, 2025

Elenco: Antonio Edson, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Luiz Rocha, Lydia Del Picchia, Paulo André e Simone Ordones
Os mineiros do premiado e consagrado Grupo Galpão estão em turnê pelo país e permanecem em São Paulo, no Sesc 24 de Maio, até 14/12, com o mais recente trabalho: (Um) ensaio sobre a cegueira. Numa parceria com Rodrigo Portella, que assina a dramaturgia e direção, o espetáculo é a releitura do grupo para o livro Ensaio sobre a cegueira, do escritor português José Saramago, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura/1998.
A montagem, com a trilha original e direção musical de Federico Puppi, comemora os 30 anos de lançamento do livro, que em forma de fábula narra o surgimento de uma epidemia de cegueira que assola o mundo: as pessoas perdem a visão e passam a ver tudo branco. Questões intrínsecas do ser humano são questionadas, como ética, moral, vida em sociedade e civilidade. O elenco, formado por Antonio Edson, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Luiz Rocha, Lydia Del Picchia, Paulo André e Simone Ordones, ganha a participação voluntária de pessoas da plateia, que passam a representar todos os cegos da humanidade.
Num palco vazio — os próprios atores compõem as cenas com objetos e até iluminam o espaço cênico — tudo começa como no romance: no semáforo de uma avenida de um grande centro urbano, ao sinal verde todos os carros saem, com exceção de um. O motorista estranha que tudo ficou branco e aí percebe que está cego; é levado para a sua casa por um homem (Paulo), que depois rouba o carro da vítima. Na sequência, este primeiro cego e sua esposa (Júlio e Inês) vão até o oftalmologista (Eduardo), que não detecta a razão da cegueira. Dias depois todas as pessoas que estiveram no consultório — um jovem (Antonio) e uma mulher de óculos escuros (Lydia), além do médico e sua esposa (Fernanda) — também ficam cegos.
Grande parte da população também passa a não enxergar e o governo trata o problema como uma epidemia, transferindo todos para um hospício, com vigilância constante. A mulher do médico finge estar cega para acompanhar o marido ao hospício, onde há luta entre os cegos por comida, por sobrevivência, por um mínimo de dignidade.
O diferencial do espetáculo é que o Grupo Galpão expande o conceito de ensaio à montagem. Desde o início, cada ator ao começar sua fala diz o nome do personagem e o que irá ocorrer. Para Eduardo Moreira, diretor artístico da companhia, trata-se do próprio ato da representação, da possibilidade de assumir, na cena, um espaço de construção da própria cena:
“A natureza de ensaio, de algo forjado no calor do aqui e do agora, na busca por um frescor permanente do acontecimento teatral, foi o impulso da adaptação proposta por Portella ao abordar a fábula da distopia de um mundo dominado pela metáfora de uma cegueira branca”, argumenta Eduardo Moreira.
“Se podes olhar, vê.
Se podes ver, repara”
José Saramago
O romance do escritor português, já adaptado no cinema por Fernando Meirelles (Blindness/2008), é uma provocação: estamos cegos para a vida, não enxergamos o que nos rodeia, não vemos o outro. A montagem do Grupo Galpão denuncia a cegueira da humanidade ao mesmo tempo que convoca a todos para enxergarmos a realidade por outros ângulos, em conjunto! O final é catártico e surpreendente.
“Talvez Saramago esteja propondo com esta distopia um ato de reparação, uma convocação para re-ver nossos acordos de civilidade e convivência. Como encenador, o que escolho reparar é a nossa noção de comunidade, nossa capacidade de se responsabilizar (de verdade) pelo outro. É neste ponto que a peça tem a sua matéria mais fundamental. E não havia melhor companhia para falar sobre isto do que o Grupo Galpão”, exalta Rodrigo Portella.
Roteirio:
(Um) ensaio sobre a cegueira. Texto: José Saramago. Direção e dramaturgia: Rodrigo Portella. Diretores assistentes: Georgina Vila Bruch e Paulo André. Elenco: Antonio Edson, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Luiz Rocha, Lydia Del Picchia, Paulo André e Simone Ordones. Direção musical e trilha original: Federico Puppi. Cenografia: Marcelo Alvarenga (Play Arquitetura). Figurino: Gilma Oliveira. Iluminação: Rodrigo Marçal e Rodrigo Portella. Visagismo: Gabriela Dominguez. Fotografia: Igor Cerqueira e Mateus Lustosa. Produção executiva: Beatriz Radicchi. Direção de produção: Gilma Oliveira. Produção: Grupo Galpão.
Serviço:
Sesc 24 de Maio (245 lugares), Rua 24 de Maio, 109, tel. 11 3350-6300. Horários: de quinta a sábado às 19h e domingo às 18h. Ingressos: de R$21 a R$70. Duração: 140 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 14/12/2025.
2 Comentários
Adriana Bifulco
novembro 26, 2025 @ 14:15
Não assisti à peça, mas li o livro há anos e ambos mostram a realidade, são atemporais: se não nos policiarmos, não enxergamos o outro, as suas dores e, muitas vezes, não percebemos o motivo de determinado comportamento. Também precisamos ficar atentos para que não façamos a transferência do que estamos vivendo, sem querer, para outra pessoa, tendo um determinado comportamento ou dirigindo uma palavra menos adequada a ela.
Que maravilha saber que temos um espetáculo do incrível Saramago na cidade!!
Maurício Mellone
novembro 27, 2025 @ 15:00
Adriana:
A obra do Saramago faz mesmo as pessoas refletirem sobre a
existência. Reflexões profundas!
E o Galpão faz uma excelente leitura da obra do escritor
português. Pena q a temporada é muito curta e os ingressos
estão esgotados… Mas sempre há alguns lugares, pessoas ficam
na fila de espera e conseguem entrar.
Beijos e muito obrigado por seu olhar para o meu trabalho.