De Maurício Mellone em setembro 15, 2015
Difícil classificar o filme de Carlos Nader Homem Comum: não é ficção pura nem ao menos um documentário clássico, com depoimentos em cronologia. O cineasta paulistano mescla no longametragem, de maneira não cronológica, seis períodos da vida do caminhoneiro paranaense Nilson de Paula — filmados em 1995, 1996, 1999, 2010, 2011 e 2012 — com cenas do clássico dinamarquês A Palavra, de Carl Dreyer, considerado um dos 25 melhores filmes de todos os tempos.
Inicialmente o diretor começou a entrevistar caminhoneiros pelo Brasil com a intenção de responder a uma questão existencial que o afligia: A vida às vezes não parece um tanto absurda, como um sonho? Do material recolhido, ele montou o curta O Fim da Viagem/1996. No entanto, Nilson e Nader construíram uma relação de amizade e o cineasta resolveu registrar a trajetória do caminhoneiro em quase 20 anos, sempre com uma visão metafísica, questionando o sentido da vida. Daí a junção com o filme dinamarquês, que por intermédio de uma família o cineasta discute a vida, a morte e a ressurreição.
O filme começa com uma conversa do caminhoneiro com a filha, já adulta, em que eles confessam a dificuldade de expressarem seus sentimentos um para o outro. E quem quebra esse diálogo entre pai e filha é exatamente o diretor, que interfere e deixa claro que se trata de uma cena do documentário. Na sequência, como narrador, Nader relata o seu projeto original, com as entrevistas com os caminhoneiros, até chegar ao primeiro encontro com Nilson, que com sua simplicidade e espontaneidade responde as mais complexas perguntas existenciais do cineasta. A partir daí, o espectador começa a tomar consciência de quem é aquele personagem tão simples, direto e humano. O diretor mostra as diversas fases da vida de Nilson, como as longas viagens transportando porcos, o convívio com a esposa e a filha pequena na volta para casa, a morte da mulher, o crescimento da filha, seus problemas de saúde e o segundo casamento. Todos os acontecimentos da trajetória do caminhoneiro são mostrados sem uma ordem cronológica, sempre intercalando com as cenas do filme dinamarquês.
Uma cena marcante do documentário é a exibição do filme A Palavra, em que estão presentes todos da família: Nilson, a segunda esposa, a filha e a neta. Além de evidenciar a sintonia entre o caminhoneiro e o diretor, o público percebe a sensibilidade e a sabedoria de Nilson diante da vida e como ele não sofre com as questões existenciais e metafísicas como o diretor confessa se preocupar muito. Nilson chega a dizer que não tem medo da morte, já que nunca sentiu dor (por mais que tenha perdido parte da visão e se submetido a interferências físicas invasivas). Mesmo sem muita instrução, Nilson se revela um homem comum, sensível, sábio e consciente de sua missão na vida. Um personagem encantador, que cativa a todos!
Fotos: divulgação
6 Comentários
sidinaldo
novembro 9, 2018 @ 08:34
Homem exemplar queria ter um pai assim
Maurício Mellone
novembro 9, 2018 @ 09:49
Sidnaldo,
obrigado pela visita ao Favo.
Este post sobre o filme é bem antigo! (rs)
A trama é comovente mesmo.
Volte outras vezes, tenho sempre novidades de
cinema, teatro etc.
Abr
Marlon de Albuquerque
outubro 9, 2015 @ 04:49
Amo histórias de pessoas comuns .
Beijos!
Maurício Mellone
outubro 9, 2015 @ 14:44
Marlon,
vc assistiu ao filme? É emocionante
a relação q o diretor criou com o caminhoneiro!
obrigado pela visita
bjs
Imad
setembro 15, 2015 @ 22:27
Seu texto é um bom estímulo, meu amigo!
Vou ver assim que puder.
E comentarei depois com vc.
Abração e grato pela dica!
Maurício Mellone
setembro 16, 2015 @ 12:23
Imad,
acredito q vc irá curtir o filme do Carlos Nader;
vou esperar seu comentário
bjs