Peça: Necropolítica, foto 1

Necropolítica: últimos dias da peça que discute perda e morte

De em agosto 1, 2018

Peça: Necropolítica, foto 1

Com Vanderlei Bernardino, Luís Mármora, Tatiana Thomé, Mariano Mattos Martins e Carol Badra

A montagem da Mundana Companhia, Necropolítica, encerra a temporada no próximo domingo, dia 5 de agosto. O espetáculo, em cartaz no Espaço Cênico Ademar Guerra, participa da IV Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos Cênicos do CCSP. Com texto do dramaturgo cearense Marcos Barbosa e direção de Aury Porto, a peça, com poucos elementos cênicos, é constituída de seis esquetes, que se sucedem com os atores apenas trocando de figurino. De forma inusitada, o mote central do espetáculo é a discussão sobre a ideia de morte:

“Na peça, a moderna tecnologia pode perernizar a consciência de um ser humano num corpo biologicamente morto. A ação da peça se passa num futuro distante no qual o desenvolvimento tecnológico tornou difusas as fronteiras entre a vida e a morte. Cadáveres providos de memória e consciência por meio de suporte digital são trazidos à vida e situados num limiar entre a morte biológica e a vida. A partir daí o autor propõe uma série de questionamentos”, afirma o dramaturgo Luís Alberto de Abreu no programa da peça.

O elenco é formado por Carol Badra, Luís Mármora, Mariano Mattos Martins, Tatiana Thomé e Vanderlei Bernardino.

Peça: Necropolítica, foto 2

Cientistas (Badra e Mármora) discutem ética

 

Num espaço vazio, somente com uma delimitação em neon, a montagem tem início com um debate num programa de auditório (espécie de talk show), em que a plateia são os espectadores da peça. Em discussão a necropolítica, defendida por uma professora universitária e uma ativista, que são contestadas por um político; a mediação é exercida pelo apresentador. No segundo quadro há um casal de cientistas que discute ética na pesquisa de necropolítica; o paradoxo é que eles esperam pela chegada de um bebê. No quadro seguinte a discussão acontece num saguão de cinema, com um espectador querendo uma atitude da gerência em virtude do que ele considera uma agressão: ele fora ofendido na sala de exibição por um homem que se revoltou com os carinhos que ele fazia no seu companheiro, um necropolítico. O outro quadro é com um casal, ele preso e a mulher exigindo que assine um documento de separação; ela não admite que o marido tenha participado de um grupo que praticava sexo com uma garota necropolítica. O quinto quadro é sobre a discussão de uma mãe com a filha, que se recusa a comer. A garota não se conforma que os pais insistam em manter seu irmão vivo como necropolítico (o rapaz morreu num assalto). O talk show é retomado para as considerações finais dos participantes e professora defende sua posição citando um texto budista de séculos atrás. O último quadro é com um arquiteto que recebe a visita de um técnico, que veio para que o dono da casa entre em contato com sua esposa, falecida e que quer se comunicar com o marido, com quem foi casada por mais de 40 anos.

A peça foi escrita um ano antes da publicação no Brasil do livro do sociólogo de Camarões, Achille Mbembe, em que o conceito de necropolítica é entendido como o modo como os governos fazem a gestão das vidas, desprezando o extermínio em massa das populações. O termo foi criado em referência à situação de nações que vivem em regime de segregação social. Mas na peça o autor usa o termo de maneira a provocar no espectador uma reflexão profunda sobre vida e morte. Mesmo não concordando com exageros da proposição do autor, impossível não se emocionar, principalmente no último quadro em que se pretende manter o vínculo afetivo do casal, mesmo com a morte de um dos cônjuges — a interpretação de Luís Mármora comove a todos.
Dramaturgia provocativa e uma montagem de grande impacto. Não perca, últimas apresentações.

Peça: Necropolítica, foto 3

Arquiteto se comunica com a esposa, morta

 

Roteiro:
Necropolítica. Texto: Marcos Barbosa. Direção: Aury Porto. Assistente de direção: Nana Yazbek. Elenco: Carol Badra, Luís Mármora, Mariano Mattos Martins, Tatiana Thomé e Vanderlei Bernardino. Direção de arte: Vera Hamburger. Cenografia: Flora Belotti. Figurino: Diogo Costa. Iluminação: Ricardo Morañez. Trilha sonora: Ivan Garro. Projeto gráfico: Mariano Mattos Martins. Vídeo: Ighor Boy. Fotografia: Sosso Parma. Produção executiva: Bia Fonseca e Nós 2 Prod. Associadas. Produção: Mundana Companhia.
Serviço:
CCSP, Espaço Cênico Ademar Guerra (80 lugares), Rua Vergueiro, 1000, tel. 11 3397-4002. Horários: de quinta a sábado às 21h e domingo às 20h. Ingresso: R$ 20 e R$10. Bilheteria: de terça a sábado, das 13h às 21h30; domingo das 13h às 20h30. Vendas: tel. 11 4003-1212 ou www.ingressorapido.com.br.  Duração: 100 min. Classificação: 14 anos. Temporada: até 05 de agosto.


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