O Estrangeiro: montagem inédita do clássico de Albert Camus

De em outubro 16, 2010

Guilherme Leme na pele de Meursault, personagem central da história

Com inúmeras atrações na cidade, como a Bienal Internacional de Artes, a Mostra Internacional de Cinema que começa na próxima semana e filmes concorridos em cartaz (Tropa de Elite 2, por exemplo), o público paulistano não pode deixar de assistir, no Teatro Eva Herz, à inédita montagem do clássico romance francês O Estrangeiro, de Albert Camus, com Guilherme Leme, que divide a direção com Vera Holtz e é o protagonista da peça.
Com uma linguagem direta, Meursault, um funcionário discreto que vive na cidade de Argel nos anos 40, narra sua trajetória de vida com objetividade. Numa cadeira giratória, o ator está de camiseta e cueca brancas e à medida que relata sua experiência vai se vestindo. Aos poucos o espectador entende que ele vivia com a mãe e por necessidade precisou colocá-la no asilo. Ao saber de sua morte, Meursault vai ao enterro e a partir daí sua vida se transforma. O próprio autor afirma que todo o “homem que não chora no enterro da mãe corre o risco de ser condenado à morte”. E o personagem, para Camus, não joga o jogo, é estrangeiro à sociedade em que vive. Em seguida ao enterro da mãe, é envolvido num crime e levado a julgamento. É condenado muito mais pelo fato de não ter chorado a perda da mãe do que propriamente pelo crime de assassinato. O essencial do personagem é exatamente isso: não mente sobre seus sentimentos, não mascara suas emoções. No tribunal isso o leva à pena capital: “a sociedade se sente ameaçada”, como afirma o autor.

Vera Holtz assina a direção ao lado de Guilherme

Transpor para o teatro um romance já é uma tarefa árdua; quando se trata de um clássico como O Estrangeiro, isso requer ainda mais responsabilidade. Mas o trabalho de adaptação de Morten Kirkskov e a tradução de Liane Lazoski são primorosos. Quem desconhece a história, consegue, assistindo a montagem, debrucar-se sobre esta obra de Camus. Destaques ainda para a sutileza da cenografia de Aurora dos Campos e a iluminação precisa de Maneco Quinderé. No entanto, os maiores méritos ficam mesmo para Guilherme Leme. O ator modula sua voz e não só diferencia os demais personagens da narrativa (o diretor e o guarda do asilo, o promotor e seu advogado, a amada e o amigo) como mostra os diversos sentimentos de Meursault, da apatia e perplexidade diante das circunstâncias à euforia diante do mar, das estrelas e da amada. O paradoxal do personagem é escancarado com a performance de Leme, que vive sem dúvida um grande momento da carreira. E o brilho de sua atuação só é evidenciado graças à generosa direção da amiga Vera Holtz.


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