Macabéa, Flor de Mulungu: Conceição Evaristo revisita Clarice Lispector

De em julho 17, 2024

 

Conto de Conceição Evaristo editado pela Oficina Raquel, com ilustrações de Luciana Nabuco

 

 

Numa bela edição da Oficina Raquel, com ilustrações de Luciana Nabuco, a escritora, poeta e ensaísta Conceição Evaristo — eleita recentemente imortal da Academia Mineira de Letras — revisita e dá nova vida a Macabéa, personagem central do último livro de Clarice Lispector, A hora da estrela, lançado em 1977. No conto Macabéa, Flor de Mulungu, logo no início a autora confessa:

 

Macabéa, a Flor de Mulungu, sou eu. Tal é a minha parecença-mulher com ela. Repito, sou eu e são todos os meus.”

 

 

 

 

 

Conceição Evaristo: imortal da Academia Mineira de Letras

 

 

Conceição Evaristo já nas primeiras linhas do conto traz um outro olhar para Macabéa de Lispector, aquela jovem nordestina, migrante, solitária e com um desfecho tão trágico:

 

 

 

 

 

 

“Macabéa, caída e semimorta no chão, imaginei que a flor de mulungu seria para ela, ou melhor, seria ela. Flor de mulungu tinha a potência da vida. Força motriz de um povo que resilientemente vai emoldurando o seu grito. Mulheres como Macabéa não morrem. Costumam ser porta-vozes de outras mulheres, iguais a ela”.

 

 

 

Ao retomar e revisitar a personagem, a escritora relembra o passado de Macabéa antes de sua vinda para o sul do país, fala de sua habilidade como cerzideira e principalmente como parteira. De forma poética, Evaristo diz que Macabéa seguia a vida em sua cidadezinha, “amparando crianças que escorregavam livremente do ventre materno, mezinhando uns e outros e laborando em cerzimentos sempre, para muitos.

 

 

 

 

 

 

Outra habilidade de Macabéa ressaltada no conto é o refinamento dela no preparo de chás e garrafadas, “remédios feitos nas urgências da vida”. A autora salienta ainda que os conhecimentos de Macabéa foram herdados de seus antecedentes, “os povos das florestas e aqueles que tinham chegado, banhados da água salgada do mar”, numa referência direta aos indígenas e aos negros vindos da África.
 

 

 

Com maestria da síntese do conto, a escritora diz “assim-assim seguia a vida de  Macabéa na capital” e relata a mudança vivida pela personagem na cidade grande, sua nova profissão como datilógrafa, as companheiras de trabalho, sua paixão por Olímpio de Jesus e suas dores e desilusões.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Novamente a autora se coloca em primeira pessoa, falando de sua identificação com a personagem: “não tive dificuldade alguma para entendê-la. Ela falava por mim, tal a nossa semelhança. Dor e aflição também me consomem.’ Contrastando com o final que Clarice Lispector deu à personagem, Conceição Evaristo arremata e diz que a personagem não pode morrer:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“A Flor de Mulungu não ia fenecer. Não. A posição fetal em que ela se encontrava era um indício de que uma nova vida se abria. Ela ia nascer por ela e com ela. Macabéa ia se parir.

“Todas, elas e eu, nós precisamos de Macabéa, Flor de Mulungu.”

 

 

 

 

 

 

Ficha técnica:
Título: Macabéa, Flor de Mulungu
Autor: Conceição Evaristo, ilustração de Luciana Nabuco
Editora: Oficina Raquel, 40 pgs
Preço: R$ 44,90

 

 

 

 

 

Fotos: divulgação

 


4 Comentários

Dinah Sales de Oliveira

julho 19, 2024 @ 19:32

Resposta

Oi, Maurício, or causa da sua resenha, agora me deu ainda mais vontade de ler a Conceição Evaristo.
Vamos trocando figurinhas.

Beijo,

Maurício Mellone

julho 21, 2024 @ 09:01

Resposta

Dinah,
Tenho certeza q vc tb vai se tornar fã da Conceição!
Beijos

ADriana Bifulco

julho 17, 2024 @ 17:24

Resposta

Muito interessante essa comparação com o livro da Clarice Lispector. A resenha ficou com gosto de quero mais. Adorei!!

Maurício Mellone

julho 19, 2024 @ 11:11

Resposta

Adriana, querida:
O livro tb, vc chega ao final do conto e gostaria q a história
continuasse! A Conceição Evaristo é encantadora, sua linguagem
envolve o leitor.
Bjs, obrigado pela visita

Deixe comentário

Deixe uma sugestão

    Deixe uma sugestão

    Indique um evento

      Indique um evento

      Para sabermos que você não é um robô, responda a pergunta abaixo: