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Juca de Oliveira brilha como único intérprete da tragédia Rei Lear


Peça: Rei Lear, foto 1

Em espetáculo solo, Juca de Oliveira interpreta oito personagens da tragédia de Shakespeare

Mesmo em se tratando de William Shakespeare e de uma de suas maiores tragédias — Rei Lear, escrita em 1606 —, tudo é inusitado na atual montagem que os paulistanos têm a chance de conferir.
Primeiramente pela adaptação de Geraldo Carneiro para um espetáculo solo ser inédita no mundo. Segundo que uma grande tragédia, com muitos personagens geralmente é apresentada em palcos imensos, mas desta vez um único ator, o grande Juca de Oliveira, interpreta oito personagens para contar toda a saga do rei que resolve dividir seu trono para as três filhas; e tudo é encenado no aconchegante e intimista Teatro Eva Herz.
Desta maneira, o ator tem a oportunidade de ficar muito próximo do espectador e a mensagem profunda do texto, de grande atualidade, fica ainda mais evidente. No programa da peça, o ator agradece a todos por ter conseguido levantar o espetáculo e desfere uma verdade:

 

 

“Esta descomunal obra de arte enriquece e alimenta, com sua atualidade, a tortuosa aventura do homem. Hoje, mais do que nunca, filhos e filhas, modernos clones de Goneril e Regan (filhas de Lear), continuam expulsando de casa os velhos pais para encarcerá-los em asilos, até a morte. Puro Shakespeare. Puro Lear”, diz Juca de Oliveira.

 

Peça: Rei Lear, foto 2

Elias Andreato assina a direção

Sob direção de Elias Andreato, o espetáculo tem início com Juca de Oliveira, todo de preto, sentado numa cadeira, no centro do palco, recitando um poema sobre como um ator deve interpretar um texto para a sua plateia. Em seguida ele incorpora Lear, o rei que ao chegar aos 80 anos resolve dividir seu reinado com as três filhas. Questionadas pelo pai sobre o amor que sentem por ele, as duas mais velhas (Goneril e Regan) só têm elogios e loas ao soberano; já a caçula Cordélia diz que seu amor pelo pai é natural e espontâneo e que saberá dividir o que sente por ele com seu futuro marido. Indignado com a resposta da mais nova, Lear resolve deserdá-la e divide o trono com as duas mais velhas. Decreta que ficará com uma tropa de 100 soldados e que viverá metade do mês com a filha mais velha e o restante do tempo com a outra filha. Qual não é a surpresa de Lear que logo ao chegar à casa da primogênita, ela contesta a quantidade de soldados à disposição do pai e inicia o boicote a ele; indignado, ele procura Regan, que não só concorda com a irmã como diminui ainda mais sua tropa. Lear vê nas filhas, que tanto o adularam antes da divisão do reino, só ganância, cobiça, ingratidão filial, despotismo e arrogância. Desnorteado, ele sai pelo mundo à míngua e quem o socorre é Cordélia, que havia sido renegada pelo pai.

 

 

“Esta adaptação procura recortar os momentos centrais da trajetória de Lear. Claro que há reduções e supressões, mas talvez o personagem tenha ganhado alguma proximidade de nós. Aqui, Lear é sujeito e narrador de sua história”, explica Geraldo Carneiro.

 

Com mérito total para a direção (de Elias Andreato e André Acioli), fiquei impressionado com a simplicidade da montagem: com um único e sóbrio figurino e apenas com cortinas ao fundo do palco como cenário — ambos assinados por Fabio Namatame—, Juca consegue transmitir toda a grandiosidade daquela que é considerada a maior tragédia de Shakespeare.

 

Peça: Rei Lear, foto 3

Com Rei Lear,  Juca completa quatro peças de Shakespeare  na carreira

 

 

 

A trilha sonora de Daniel Maia e a iluminação de Wagner Freire são elementos fundamentais para a construção da saga do rei. E a interpretação soberba de Juca de Oliveira — sem dúvida um marco de sua premiada carreira de mais de 60 anos — faz de Rei Lear um dos mais importantes espetáculos de 2014.


 

 

 

 

 

Fotos: João Caldas

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Maurício Mellone

Como jornalista — tendo atuado em rádio, TV, jornal, revistas e assessoria de imprensa —, a palavra sempre foi minha matéria prima. No entanto, desde 2000 venho cultivando o plano B, ou seja, mantenho no meu velho PC um arquivo com meus escritos, que na verdade já era um pré-blog. Lá, deixo fluir a imaginação para que a linguagem inclusive ganhe novos contornos.


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6 Comentários para “Juca de Oliveira brilha como único intérprete da tragédia Rei Lear”

  1. Sergio Bruno Says:

    Parabéns Juca de Oliveira pelo maravilhoso espetáculo e a você Maurício Mellone pela crítica formidável!!

    responder

  2. Juca de Olivedira Says:

    Adorei, Mellone!!!
    Já conservei entre os meus guardados mais queridos!
    Muitíssimo grato! Você é um excepcional crítico teatral!
    Parabéns!
    Imenso abraço,
    Juca

    responder

    • Maurício Mellone Says:

      Juca, que honra receber seu comentário aqui no Favo!
      E ainda mais com o elogio! rsrsr
      Comentei ao sair da sala com o André Acioli sobre
      a delicadeza e ao mesmo tempo a grandiosidade
      do trabalho de vcs.
      Novamente parabéns e desejo muito sucesso ao espetáculo.
      abr

      responder

  3. sergio Says:

    Muito bom seu texto Maurício, voce falou de todos da produção, juntos resultaram neste lindo espetáculo! Parabéns!

    responder

    • Maurício Mellone Says:

      Bruno,
      vc está vendo com quem está dividindo os comentários aqui no Favo?
      Nada menos do que o protagonista do espetáculo!
      Estou muito honrado de ter recebido o comentário do Juca de Oliveira!
      E vc, que assistiu a peça ao meu lado, sabe o quanto admiramos o trabalho
      da equipe.
      Obrigado por sua visita, sempre constante e carinhosa!
      bjs

      responder

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