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Lembro todo dia de você: musical mostra vida de um jovem soropositivo

De em maio 24, 2017

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Davi Tápias e Gabriel Malo interpretam o casal de namorados Thiago e Júlio

Há 12 anos na estrada, o Núcleo Experimental já produziu mais de 20 espetáculos e uma de suas características é a busca da integração do teatro e a música. Depois do sucesso do premiado musical Urinal de 2015 (versão de Urinetown de Greg Kotis e Mark Hollmann), o grupo acaba de estrear no CCBB-SP seu primeiro musical original com temática sobre a realidade brasileira e com canções compostas especialmente para o espetáculo — letras de Fernanda Maia e músicas de Rafa Miranda.
Tendo como base o depoimento de cinco rapazes soropositivos com menos de 30 anos, incluindo o autor das músicas, Lembro todo dia de você mostra o drama de Thiago, interpretado por Davi Tápias, que contraiu o vírus HIV com 20 anos. A trama mescla memória, delírios e fatos reais deste jovem, que precisa lidar com preconceitos e estigmas que ainda hoje perduram na nossa sociedade sobre Aids e soropositividade, além da própria condição de assumir sua homossexualidade. Com texto de Fernanda Maia e direção Zé Henrique de Paula, que assina os figurinos e é um dos atores, o espetáculo conta ainda com seis atores e seis músicos regidos por Rafa Miranda.

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Davi à frente do elenco formado por sete atores

O maior desafio do grupo foi retratar no palco uma realidade tão dolorosa e delicada por meio de um musical, que traz canções que vão do pop ao bolero, do sertanejo ao jazz e música eletrônica. Fernanda Maia, que também assina a direção musical, é enfática ao definir o musical:

 

“A arte não dá respostas, ensina a fazer perguntas melhores. O que guia essa peça não são certezas, mas dúvidas e questionamentos. A peça revisita a história desse rapaz e suas relações, muitas delas atravessadas pelo diagnóstico do HIV. Hoje ser portador de HIV não significa uma sentença de morte. Aids hoje é uma infecção. O que permanece são os estigmas e preconceitos. Nossas cabeças precisam evoluir assim como a medicina evoluiu. Queremos falar da relação humana, sem julgamentos”, diz.

A cena inicial é com Thiago deitado no centro do palco e os demais atores posicionados ao fundo e na canção há o chamamento para a vida:

Acorda/
Se livra do desejo de ficar aí no chão/
Só, aí no chão/
Acorda.

A partir daí a trama inicia com cenas que ora são do cotidiano de Thiago, ora são memórias, ora são puros delírios. Ele também embaralha na cabeça as pessoas de sua convivência: se numa cena Thiago está com Maristela, sua melhor amiga, na seguinte ele é atendido por uma enfermeira, ambas interpretadas por Bruna Guerin. Os demais atores também vivem dois papéis, são os duplos de Thiago: Anna Toledo vive a mãe e ao mesmo tempo a médica; Zé Henrique é o padrasto e o homem de barba que transmite o HIV; Fabio Augusto Barreto é a drag queen e o psicólogo e Fabio Redkowicz interpreta o pai e um dos namorados dele. Já Gabriel Malo, que também assina a coreografia, vive Júlio, o primeiro namorado de Thiago, seu grande amor.
Mais do que a apresentar a trajetória de vida de um rapaz com HIV nos dias de hoje, o musical enfatiza a relação afetiva entre as pessoas, a falta de comunicação e diálogo, o amor e, principalmente, o abandono que marca a vida de Thiago.

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Com exceção de Davi e Gabriel, os demais vivem 2 personagens

Com um cenário simples e funcional (o fundo do palco é um grande painel, que abriga telas com projeções e bancos e cadeiras acoplados), o espetáculo é centrado na interpretação e as canções conduzem a narrativa. O elenco está em perfeita sintonia em cena. Há uma nítida separação entre o primeiro e o segundo ato, que surpreende o espectador. E o desfecho, sem dúvida, é o ápice da emoção. Saí do teatro um tanto perturbado — muito por minha experiência dolorida com relação à Aids nos anos 1990 —, mas ao mesmo tempo entusiasmado com um espetáculo que provoca a indispensável reflexão sobre a realidade do vírus HIV hoje e a ênfase contra qualquer tipo de preconceito. Que a diversidade e a tolerância se sobreponham à intransigência e à discriminação.

Roteiro:

Lembro todo dia de você. Texto/letras e direção musical: Fernanda Maia. Música: Rafa Miranda. Direção: Zé Henrique de Paula. Colaboradores no texto: Herbert Bianchi e Zé Henrique de Paula. Elenco: Anna Toledo, Bruna Guerin, Davi Tápias, Fábio Augusto Barreto, Fabio Redkowicz, Gabriel Malo e Zé Henrique de Paula. Músicos: Fernanda Maia (piano), Abner Paul (bateria), Benjamin Bernardes (violino), Branco Bernardes (viola), Clara Bastos (contrabaixo) e Felipe Parisi  (violoncelo). Preparação de atores: Inês Aranha. Figurino: Zé Henrique de Paula. Iluminação: Fran Barros. Coreografia: Gabriel Malo. Cenografia: Bruno Anselmo. Fotografia: Giovana Cirne. Criação Núcleo Experimental.
Serviço:
CCBB-SP (140 lugares), Rua Álvares Penteado, 112, tels.: 11 3113-3651/3652. Horários: sexta, sábado e segunda às 20h, e domingo às 19h. Ingressos: R$ 20 e R$ 10. Duração: 100 min. Classificação: 16 anos. Temporada: até 26 de junho.


2 Comentários

Fábio Mráz

maio 24, 2017 @ 17:51

Resposta

Maravilha de espetáculo! Essencial e emocionante!
Vida longa à “Lembro Todo Dia de Você”!

Maurício Mellone

maio 24, 2017 @ 18:19

Resposta

Fábio,
também gostei muito do musical e me junto a vc
na torcida para haja outras temporadas (demais unidades
do CCBB), além de apresentações na própria sede do
Núcleo Experimental.
Obrigado por sua constante presença por aqui
bjs

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