Peça: Selvagens- Homem de olhos tristes, foto 1

Peça de autor austríaco exige que espectador conceba a própria trama

De em novembro 13, 2014

Peça: Selvagens- Homem de olhos tristes, foto 1

Vitor Placca, Edu Guimarães, Rubens Caribé e Flávia Couto vivem os personagens centrais da trama de Händl Klaus

Uma coisa é certa: ao final da encenação da peça experimental do austríaco Händl Klaus, (Selvagens) Homem de Olhos Tristes, o espectador sai sem ter uma noção precisa do que assistiu nos últimos 60 minutos.  O autor, com seu texto contemporâneo, de diálogos desconexos e sem linearidade, exige que o público construa a trama, una os pontos que em cena ficaram soltos e em aberto. Felizmente ao sair da sala de espetáculo do Club Noir, junto com amigos, fomos alinhavando e costurando as propostas da trama e cada um voltou para casa com a sua própria história criada. Uma experiência no mínimo instigante.

Peça: Selvagens- Homem de olhos tristes, foto 2

O grupo é dirigido por Hugo Coelho

Com direção de Hugo Coelho, a peça mostra a tentativa de Gunter de Bleibach, interpretado por Rubens Caribé — um profissional da instituição Médicos Sem Fronteira — de voltar para casa e rever seus pais. Mas por se sentir asfixiado e com muito calor dentro do trem, o médico desce na estação e logo é abordado pelos irmãos Flick, vividos por Eduardo Guimarães e Vitor Placca, que a princípio se mostram solícitos e oferecem abrigo. No entanto, durante o caminho até o apartamento onde moram com a irmã doente, a enfermeira Hedy (Flávia Couto), os rapazes mostram outro lado da personalidade: agridem um velho mudo (Henrique Taubaté Lisboa) e obrigam que Gunter faça o mesmo. Ao chegarem em casa, nova surpresa: eles, que saíram para trazer água — o lugar passa por uma estiagem em pleno verão, uma triste ironia aos paulistanos que estão na mesma situação — voltam de mãos abanando e são obrigados a sair em busca de algo para beber, deixando o médico e a enfermeira a sós. Os diálogos continuam entrecortados e Gunter faz um procedimento cirúrgico na moça. Com a volta dos irmãos, o médico vê que o velho agredido é o pai deles e a situação torna-se ainda mais irracional.
Tudo aquilo não passa de um grande sonho (ou pesadelo)? O que é real e o que é imaginário? Quem vive e quem está morto? Que tipo de viagem é aquela que o médico está fazendo? Qual o significado para a falta de ar, de água e de luz? Metáfora ou uma ausência de fato de elementos essenciais à vida?

As perguntas são inúmeras, as dúvidas maiores ainda. Por isso que o espectador precisa estar atento a todos os detalhes e falas (entrecortadas e ditas como jogral pelos dois irmãos) para montar uma trama possível.

“Temos necessidades e desejos de ordem material, emocional e espiritual, carregamos a condição trágica da incompletude: uma angústia de querer chegar a algum lugar, a busca de uma condição de bem estar, de satisfação plena”, argumenta o diretor.

O público que assiste a (Selvagens) Homem de Olhos Tristes sai inquieto e com questões que deseja solucionar. Talvez esta seja a proposta do dramaturgo. No programa da peça, Hugo Coelho cita o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, que afirma que obra de arte é a obra mais o universo de quem a vê. Pensamento crucial para esta peça.
A iluminação de Fran Barros e a trilha sonora de Ricardo Severo merecem destaque, por pontuarem e serem elementos-chave da montagem. A interpretação de Rubens Caribé deve ser ressaltada também: o ator dá o tom exato de angústia e perplexidade que o personagem exige. O espetáculo é apresentado só às quartas e quintas, até o dia 18 de dezembro. Confira e, se quiser deixar a sua versão do enredo nos comentários, poderemos compartilhar nossas visões da peça.

Fotos: Helô Bortz


4 Comentários

Ed Paiva

novembro 14, 2014 @ 07:58

Resposta

Maurício,
O teatro é o espaço do encontro, da proposta, da transformação. Nesse sentido, deixei-me entregar pela exercício de imaginação oferecido e foi extremamente prazeroso. A inúmeras suposições e interpretações que se seguiram à encenação valorizaram a proposta da atual montagem. Rubens Caribé passa uma angústia da qual é impossível não se identificar. Vitor Placca e Eduardo Guimarães, como os irmãos Flick, emulam duplas inesquecíveis. São Tico e Teco perversos, Laurel and Hardy dramáticos. No cubo branco em que se desenrola o sonho/pesadelo, a iluminação de Fran Barros é sugestiva e envolvente.
Abraço!

Maurício Mellone

novembro 14, 2014 @ 14:08

Resposta

Ed,
Minha resenha é o resultado do nosso
enriquecedor bate papo após a encenação!
E agora vc vem complementá-la e acrescentar sua
visão sensível e profunda sobre a peça.
Obrigado por tudo: companhia, conversa inteligente
e por sua constante participação aqui no Favo.
Bjs

Fábio Mráz

novembro 13, 2014 @ 18:02

Resposta

Perfeita resenha, Mau. Conseguiu explicar perfeitamente a sensação com que saimos da peça. Concordo plenamente com o destaque para o excelente trabalho do Fran Barros, do Ricardo Severo e do Rubens Caribé, mas destaco também o pontual trabalho do Vitor Placca, que soube dosar perfeitamente o lado “solicito” e perverso da personagem de forma muito equilibrada.
Muito bom!

Maurício Mellone

novembro 13, 2014 @ 18:44

Resposta

Fábio, querido:
redigir a resenha fluiu de maneira prazerosa
graças ao nosso papo depois da encenação!
Obrigado pela companhia, pela troca de impressões
e por esta participação aqui, tão carinhosa
bjs

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