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Quarto 19: solo de Amanda Lyra sobre os dilemas e direitos da mulher


Peça: Quarto 19, foto 1

Amanda Lyra vive a protagonista do conto de Doris Lessing; a atriz também assina a tradução e adaptação da obra

 

Nada mais oportuno do que, em plena semana do Dia Internacional da Mulher, acontecer a estreia do monólogo Quarto 19, baseado em conto homônimo da escritora Doris Lessing. A trama, em cartaz no Auditório do SESC Pinheiros e dirigida por Leonardo Moreira, traz a atriz Amanda Lyra na pele de Susan, uma mulher de classe média alta, publicitária, que se casa com o homem que ama, o jornalista Matthew, tem três filhos e abandona o trabalho para cuidar da família.
Tudo parecia um mar de rosas, mas ela começa a se entediar com aquele casamento burguês e acredita que terá sua liberdade de volta assim que o filho caçula for para a escola. No entanto, este dia chega e ela não sabe o que fazer da vida, sente que perdeu sua identidade e passa a se refugiar num quarto de hotel, onde se isola. Susan questiona sua existência e vive em conflitos.

Peça: Quarto 19, foto 2

Monólogo de Amanda é dirigido por Leonardo Moreira

Com o palco vazio, apenas uma poltrona num canto, a atriz vem da plateia e começa o relato sobre a vida de um casal maduro, que se ama e resolve formar uma família. Eles se casam, vão morar num lindo apartamento e com a chegada do primeiro filho resolvem se mudar para uma casa maior, com um belo jardim. Logo os gêmeos nascem e ela já abandonou o trabalho para cuidar dos filhos, do marido e da casa. Uma vida dos sonhos, até então só de alegrias. Mas Susan começa a perceber que tudo perdeu o sentido, não se identifica mais com aqueles papéis que é obrigada a desempenhar, a de mãe prestativa, de esposa amantíssima, de patroa eficiente. Quer sua vida de volta, sua liberdade e acredita que só num local isolado vai se sentir plena. Começa a se refugiar todas as tardes no quarto 19 de um hotel vagabundo. Mas será que seus fantasmas, mesmo neste refúgio, a deixarão livre? Seus conflitos, sua angústia e depressão terão fim neste esconderijo?
A trama tem esta mudança radical: do início ‘cor-de-rosa’ da relação de Susan e Matthew, para o estado depressivo, aflitivo e opressivo que a vida daquela mulher se tornou.

“Susan está consciente de que é prisioneira de alguma coisa maior e passa a acreditar que está doente No entanto, o mal que a aflige está no âmago da sociedade e não nas anomalias individuais. A personagem vive assim a luta silenciosa de muitas outras mulheres”, explica Amanda Lyra.

O que mais me chamou a atenção na montagem é a sutil mudança na narração: de uma frase para outra a atriz altera o sujeito, de quem se refere; numa frase relata a vida de Susan e na seguinte já fala na primeira pessoa, sobre as agruras de sua vida! Com uma direção precisa de Leonardo Moreira, Amanda Lyra (que assina a tradução e adaptação do conto) sabe dosar com maestria as nuances emocionais da personagem. Espetáculo denso e reflexivo que contribui para as discussões sobre direitos da mulher de hoje, que ainda está sujeita a discriminação e cerceamento numa sociedade machista e patriarcal.

Peça: Quarto 19, foto 3

Personagem se refugia num quarto para se sentir plena


Roteiro:
Quarto 19
. Texto: Doris Lessing. Tradução: Amanda Lyra. Direção: Leonardo Moreira. Concepção e atuação: Amanda Lyra. Iluminação e cenografia: Marisa Bentivegna. Preparação corporal: Tarina Quelho. Fotografia: Cris Lyra. Produção: Aura Cunha, Elephante Prod. Artísticas.
Serviço:
SESC Pinheiros, Auditório- 3º andar (98 lugares), Rua Paes Leme, 195, tel. 113095.9400. Horários: quinta a sábado às 20h30. Ingressos: R$ 25,00, R$ 12,50 (estudante, servidor de escola pública, + 60 anos, aposentados e pessoas com deficiência), R$ 7,50 (servidor do comércio e serviços). Venda: nas bilheterias da rede SESC. Duração: 80 min. Classificação: 18 anos. Temporada: até 15 de abril.

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Maurício Mellone

Como jornalista — tendo atuado em rádio, TV, jornal, revistas e assessoria de imprensa —, a palavra sempre foi minha matéria prima. No entanto, desde 2000 venho cultivando o plano B, ou seja, mantenho no meu velho PC um arquivo com meus escritos, que na verdade já era um pré-blog. Lá, deixo fluir a imaginação para que a linguagem inclusive ganhe novos contornos.


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