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Um Verão Familiar: novo trabalho da Cia dos Inquietos


Ed Moraes interpreta Júlio, que rememora seu passado na trama de João Fábio Cabral

Num cenário de poucos elementos — apenas uma mesa de jantar com cadeiras e um grande tonel de água —, Um Verão Familiar, trama de João Fábio Cabral em cartaz no SESC Belenzinho até o dia 9 de setembro, procura analisar em minúcias os bastidores de uma família, constituída de quatro membros: o pai ausente e ao mesmo tempo opressor, a mãe submissa e superprotetora dos rebentos, a filha ingênua e vítima do progenitor e o primogênito, um garoto sensível, amante das artes e por ser o oposto do pai é sistematicamente oprimido no seio familiar. No entanto, o público vai descobrindo aos poucos como funciona aquela família por meio do relato de Júlio, que retorna ao lar anos depois e relembra o que viveu na infância e adolescência ao lado da família. Como tudo é fruto da memória do rapaz, fica a dúvida do que realmente aconteceu naquele lar, o que é realidade e o que é fantasia dele.

Renata Guida, Ed Moraes, João Bourbonnais e Lavínia Pannunzio vivem o núcleo familiar da trama

Depois de um grande silêncio, Júlio — numa interpretação tocante de Ed Moraes —, até então submerso no tonel de água, vem à tona e começa seu relato. Inicia sua apresentação dizendo-se ser um jardineiro, amante das flores e das artes. Aos poucos diz que sua paixão pela música vem da infância e suas reminiscências afloram. Paralelamente ao relato do personagem, as cenas se desenrolam mostrando os bastidores e as torturantes relações daquela família, principalmente a opressão exercida pelo pai, interpretado por João Bourbonnais. Como eram de temperamentos opostos, o garoto foi sempre o mais visado e fustigado pelo pai, que também oprimia a mulher (Lavínia Pannunzio) e a filha (Renata Guida), esta inclusive violentada sexualmente.
Um detalhe fundamental da direção de Eric Lenate (que também assina a cenografia) é o tom da articulação dos atores: todos falam baixo e pausadamente, mesmo nas cenas em que os ânimos se alteram. Talvez para deixar clara a opressão vivida naquele lar. Como Júlio rememora o que viveu, a trama segue uma linha não cronológica e o limite entre real e ficção é tênue. Somente depois da metade do espetáculo é que o público percebe que Júlio volta para o lar de sua infância e está ali vivenciando momentos de sua história de vida.

 

Em memória de tudo aquilo que ainda nos atormenta”.

 

Esta frase é projetada ao final do espetáculo e serve como síntese da obra de João Fábio. A interpretação do elenco é o grande destaque de Um Verão Familiar: difícil ressaltar a atuação de um ator em particular, todos estão afinadíssimos e em perfeita sintonia. Destaque também para a iluminação de Aline Santini e os vídeos de Fabi Loyola que interagem com a trama, tornando-se elementos crucias para a narrativa.
Sendo este o segundo trabalho da Cia dos Inquietos — a estreia foi em 2011 com o texto do carioca Jô Bilac, Limpe todo o sangue antes que manche o carpete, resenhado aqui no Favo — o público pode esperar por montagens renovadoras e inquietantes no futuro, pois o grupo mostra vigor e critério apurado em suas produções.

Fotos: Gustavo Porto

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Maurício Mellone

Como jornalista — tendo atuado em rádio, TV, jornal, revistas e assessoria de imprensa —, a palavra sempre foi minha matéria prima. No entanto, desde 2000 venho cultivando o plano B, ou seja, mantenho no meu velho PC um arquivo com meus escritos, que na verdade já era um pré-blog. Lá, deixo fluir a imaginação para que a linguagem inclusive ganhe novos contornos.


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2 Comentários para “Um Verão Familiar: novo trabalho da Cia dos Inquietos”

  1. João Bourbonnais Says:

    Obrigado pelo excelente artigo, Maurício! Abraço.

    responder

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