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EXCLUSIVO: Mario Garrone lança outro conto inédito aqui no Favo


Conto: Brígida aos Pedaços, foto 1

Ilustração de Ricardo Castro

Mario Garrone mais uma vez me dá a honra de poder publicar aqui no Favo outro de seus contos inéditos. Em Brígida aos Pedaços, seu estilo marcante — o de prender o leitor ao narrar e, ao mesmo tempo, omitir não só termos como ações e fatos da história — fica evidente. Desde o título e as primeiras linhas do conto o leitor sabe que a personagem central, Brígida, foi brutalmente assassinada. No entanto, é preciso muita atenção para montar, peça a peça, um verdadeiro mosaico criado pelo autor sobre a trajetória da garota, que teve seu corpo esquartejado e jogado por toda a capital federal, “à vista dos pedestres”.
Além das omissões, que aguçam a curiosidade, Garrone neste conto usa do subterfúgio de narrar de maneira não cronológica, de ir e voltar na vida de Brígida, o que requer atenção redobrada ao se ler. Outro recurso utilizado é que o narrador participa ativamente da história, é cúmplice da vítima (“quem mais senão eu para saber de todo o perigo?”).
E o que mais me chamou a atenção: o desfecho do conto fica por conta do leitor. Garrone, pelas pistas deixadas no transcorrer da trama, não diz como o crime ocorreu e lança questões ao leitor. Há indícios, mas a vítima provocou o criminoso? Como e por que Brígida foi morta tão barbaramente? E o autor termina com mais indagações, incitando o leitor a refletir sobre as mortes brutais a prostitutas.
Procure decifrar o enigma proposto por Mario Garrone e deixe seu comentário com a sua versão do crime.

 

Conto: Brígida aos Pedaços, foto 2

Monumento em Ceilândia/DF

Brígida aos Pedaços       

Que Brígida viesse a ter o fim que teve, ninguém em sã consciência, em perfeito estado mental. Não se imagina o que escapa a todo pensamento, não se morre assim, não se termina a vida desse jeito.
Dizer que nada de bom, só o diabo na frente, o capeta, isso é vago. Depois que o horror toma conta vir falar como se o horror já estivesse lá desde o começo, desde quando se decidiu que era aquilo o que se queria viver, até eu se quisesse falava, inventava, fazia farol como o Cirilo, que nunca soube o que aconteceria com a Brígida e mesmo assim garante que estava na cara, não podia dar noutra, o castigo vem para quem peca, evitar as duras consequências nem Deus.
Desde quando acontece com todas? Desde quando o fim igual? Um pedaço em cada canto, dedos avulsos com unhas esmaltadas encontrados na Ceilândia, um pé perto do aeroporto, a cabeça à beira do lago Paranoá, a parte com o sexo e a bunda a poucos passos da catedral, em dia de missa pela manhã, as omoplatas nas imediações do Ministério da Saúde.
Corpo cortado e espalhado nunca foi todo dia, isso não se vê na tevê nem no jornal. Se eu quisesse, também mentia. Quem mais senão eu para saber de todo o perigo? Sempre fui confidente, ouvia as alegrias, as lamúrias, os chorinhos se houvesse, as coisas mais íntimas que não se conta por aí a ninguém e ela contava para mim pelo telefone quando mudou de cidade. Me passar pela cabeça o que veio a ser de hediondo, contudo, nem no pior pesadelo que eu tive. Uma morte assim supera toda visão que anteveja o desfecho medonho que haja.

Nem no rádio que eu ouço direto algum dia se falou que alguém teve o corpo vilipendiado e esculachado como o da Brígida, um quebra-cabeça obsceno de membros pelas ruas da capital federal. Cortar para esconder no saco de lixo, jogar as mãos e os pés no buraco e tapar? Isso lá atrás, outros tempos. Hoje não. Matar só não basta, é preciso exibir para humilhar mais o corpo, para dar o exemplo, avisar qual é o troco.
O Cirilo, que não sabe da história a metade, se atém só ao fato de ela ter decidido ser puta em Brasília. Vida tranquila não é, imagino sim pelo que eu soube de outras, aturar homem grosso e sem banho, sujeitinho horroroso com desodorante vencido, carinha rude sem nenhum sinal de afeição, cliente atrevido que porque paga acha que pode tudo. Isso há. Mas de uma maneira ou de outra elas gostam daquilo, porque se não gostassem quem é que aturava? Brígida quis viver em Brasília e ser puta. Por um tempo ela quis e gostou, coisa nenhuma desse negócio manjado de se sentir suja, imunda, de passar desinfetante no corpo, de chorar e ter vergonha de ser o que era. Havia dinheiro e havia gosto, cada dia um deputado federal diferente na cama, ela nua para vários. A continuar como era, nada de mal pela frente. Matam e esquartejam quantas? Quem é o Cirilo, beato de igreja que nem conhece mulher, para dizer que só podia dar no que deu? Há putas que continuam na ativa depois dos sessenta e se vão pelo infarto, o descontrole da diabete, o câncer, o AVC, uma gripe mais forte, uma pneumonia que não regride, um atropelamento, uma anestesia quando se está deitadinha na maca à espera do cirurgião e da faca.

Conto: Brígida aos Pedaços, foto 3

O erro foi ter ido viver em Brasília e se apaixonar pelo moço mulato. Erro foi ter se envolvido com o padre Sadi quando ela ainda trabalhava nos recursos humanos da fábrica de biscoito.
Brígida disse que a paixão é o grande busílis. A pessoa não é ninguém para decidir se é fria, se presta. Sim, ela veio com essa de que sentimento não é coisa que a cabeça sensata imponha. Não há linha de ação possível se o que se vive é um encantamento vindo de qualquer lugar, menos do cérebro. Cai-se de paixão mesmo sabendo que se cai por um ser mesquinho, egoísta, covarde, porque a paixão é irracional, não tem nenhum fundamento, invade a gente e a gente fica besta e nem quer saber se aquilo vale, se é treta, encrenca, se vai dar em barraco, em desastre.
Vá lá que a paixão neutralize a pessoa, mas a cabeça não sai do pescoço, o raciocínio não some. Quem se apaixona ainda pensa, não pensa?
Bastava Brígida não insistir, deixar de ir à igreja todo domingo, bastava não se informar toda semana a respeito da hora da missa em que ele estaria lá no altar mentindo, dando a hóstia sem acreditar no corpo de Cristo nem no sangue de Jesus no vinho dentro do cálice. Que tivesse ela frequentado barzinho, forró, baile funk, olhado para todos os homens que andam pela Paulista. O amor pode nascer da procura, nem toda paixão cai do céu sem sacrifício no momento em que se vai ao confessionário revelar os pecados mais sujos e a voz do padre cujo rosto já tinha lhe despertado a atenção a faz querer ficar daí em diante sempre no banco da frente da igreja e a comungar toda vez.
Brígida quis o padre Sadi para si e está aí no querer o começo do erro que a levou a Brasília e ao bancário mulato anarquista.
Cirilo nem soube da paixão, não se apresenta a um irmão um namorado desses, é tudo quase secreto, quem sabe são poucos, o irmão carola não tem nada que saber que o sujeito que vai para a cama com a irmã é sacerdote da igreja católica. Padre que namora não visita a família da moça, não tem sogra nem sogro, não tem cunhado, tudo se dá no motel, nem passear pela rua convém.
Quem contou ao Cirilo o que ela foi fazer em Brasília não contou sobre o padre Sadi porque não soube do affair, quase ninguém esteve a par do romance. Eu estive e fui contra. Ela namorava um embuste, isso eu disse, e direi, mas não ao Cirilo, que pensa que sabe das coisas impuras das vidas dos outros, mas ignora mais do que conhece.
Se Brígida não tivesse se apaixonado, ela aqui viva, ou lá, mas não o corpo todo desmembrado ao relento, um despudor descarado de quem fez.
Não quisesse mais vê-lo, era querer e não via, padre não sai para a balada, não frequenta bar nem boate, não precisa caçar mulher à noite, há espaço de sobra para um ex-casal desse tipo não se ver nunca mais.
Deixar de ser padre nem em sonho ele ia. Por ele a coisa podia seguir como estava, padre não casa, até vira pai, mas não casa. Pai ele poderia vir a ser, isso dava. Marido oficial, aí não.
Brígida quis se convencer do impossível. Enfiou na cabeça que dava, o amor o faria abrir mão de toda aquela segurança e parar de mentir para os fiéis que nunca souberam nem saberão que para o padre Sadi não há Deus lá no céu, inventaram pelo bem e pelo consolo, pela misericórdia. Sem a perspectiva de Deus (ele disse a ela), sem esse sonho, sem haver essa ilusão coletiva que controla e segura a turba, ia ser um tal de neguinho se jogando de  prédio, de ponte, tomando cicuta, dando tiro na boca, cortando para valer o pulso com a faca, provocando overdose, engolindo de uma vez todo o remédio controlado do mês.

Conto: Brígida aos Pedaços, foto 4

Brasília não podia ser saída. E não foi. Para mudar de vida não tem de sair da cidade se a cidade não é uma vilinha cheia de casa em volta da igreja cujo padre se nega a andar de mãos dadas na rua.
Brígida deu xeque-mate. Entre o sacerdócio e Brígida, o padre Sadi nem piscou. De nada adiantou endurecer com o homem, encostar na parede, ameaçar contar tudo para o bispo e dizer que ia espalhar na missa panfleto com fotos dos dois nus no Motel Alambique.
O joelho direito jogaram na entrada do shopping, o esquerdo pertinho da boate, uma mão sem os dedos diante da bilheteria do estádio Manezão, os dois dedões do pé e o polegar da mão direita na porta do açougue.
Que havia perigo havia, isso eu disse para ela, abra os olhos, criatura, sossega, afasta de si esse namorado anarquista, põe para correr o quanto antes. Não convinha a uma puta atiçar e provocar senador.
Namorar o padre ateu foi um passo em falso que não tem tamanho. Mas muito pior foi o que veio, e o que veio não se deu por ela ter decidido ser puta em Brasília, como Cirilo supõe e diz com ares de glória a Deus. Ficasse ela simplesmente dando o cu a ministros e assessores do segundo escalão, nenhuma morte na frente, prostituta não morre preferencialmente assassinada, não há estatística que aponte.
Dar para deputado e senador em Brasília foi a meta, o desbunde, a fantasia da Brígida pós-padre. O que a fez deixar São Paulo xingando o Sadi e a fábrica de biscoito que não dava camisa a ninguém e ia falir, ela sabia que ia.
Puta não morre pelo simples fato de cobrar para dar e pôr a boca no pinto e no saco (tem estatística onde?). Prostituta preparada como ela, com um pé no mestrado, não leva tiro na cara. Muito menos é cortada ao meio.
Se ela não tivesse ido morar em Brasília e não tivesse aparecido Adão, o moço mulato, a história era outra, não essa coisa medonha que houve.

 

 

 

Conto: Brígida aos Pedaços, foto 5

Congresso Nacional/DF

Apaixonar-se foi a causa de a vida ter ido para o ralo, isso Cirilo não sabe, embora continue a dizer com toda a sua ignorância que o fim de quem dá e cobra nunca presta, quem se degrada na viração perde a alma e se fode  (palavrão sai sim da boca suja de beato, quem disse que não?).
Brígida tinha uma amiga de infância no ramo do sexo pago e por meio da Zuca ela se aproximou da fina flor do poder: ministros, deputados, senadores, funcionários de terceiro e quarto escalão.
Puta não questiona a laia do cliente. Serve a quem paga e tem é que usar bem a língua, as mãos e as partes. Se deu na tevê que o senador meteu a mão no dinheiro da sopa da merenda escolar das criancinhas, nem por isso ela se nega ao programa. Abre as pernas quantas vezes o senador se disponha a pagar, puta não avalia, não julga, não discrimina, não está nem aí se o cliente tem barriga de chope, se o pinto é pequeno demais, se tem hálito de boi, se tem chulé, se deu desfalque, se faz parte da quadrilha dos remédios falsificados, do superfaturamento das obras da rodovia, da farra das ONGs corruptas, nada disso é da conta da puta. Puta tem que ter vocação e não se importar com índole e ética. Vai com o inimigo do ministro e com o ministro cujo inimigo sempre goza e paga, vai com o deputado aguerrido da oposição e com o deputado mancomunado com o banqueiro que todo dia acorda mais rico. Cirilo não sabe que houve o Adão, o rapaz mulato anarquista, mas houve o bancário de cabelo pixaim e foi só por isso que a morte veio.
Brígida disse que foi viver em Brasília para se afastar de vez do padre vacilão e tirar o dinheiro que desse de político e assessor, fazer seu pé de meia com a bunda que sempre lhe deu cartaz (na praia, então, de fio dental, era um  tal de não lhe tirarem nunca os olhos de cima e ela nem aí, nem pelota. Brígida nunca teve queda por cafajeste que olha para a bunda e fala, vê as coxas roliças e comenta alto e bom som, se fixa direto nos seios e por um triz não toca).

Para a puta não cabe frescura, antecedentes criminais do freguês não contam, comprovadíssima falta de caráter do sujeito a fim não é impedimento. Se o cara graúdo paga o tanto, estamos conversados, prostituta não cai na vida para apontar o dedo em riste diante do nariz do deputado, de ameaçar político ladrão que numa noite de melancolia e bebedeira fez confidência suja indevida, falou mais que a boca. Não se olha para o deputado ilustre peladão esparramado na cama ainda de pau duro ao fim do ato e diz que sente nojo dele e de todo o resto da corja.
Mulher que vive de dar, não contesta cliente, não tem nada de vir com palpite e ideia e se tem ideia formada sobre alguma coisa, esconde. Se o ministro quer comer, que coma e volte outra noite, puta está sempre pronta para ir com deputado e lobista, ser puta é acolher o santo e o bandido. Se o cara topa pagar o devido, seja ele quem for, nada breca.

Conto: Brígida aos Pedaços, foto 6

O rapaz mulato que visse só o breu e a bosta. Que classificasse o Brasil como um covil, um esgoto a céu aberto, um sem-fim de coisa podre infestando e envenenando o ar. Isso era lá com ele. Brígida é que não tinha de ter ido na onda.
Paixão é coisa que passa e desaparece. É só esperar que passa. Quando se vê já foi, era nada, não fica nem sombra. Quem se deixa levar demais se arrepende, mas aí o rolo está feito, nem sempre tem volta, a pessoa pode estar frita por se deixar contaminar pela cabeça do bancário anarquista de cabelo pixaim.
Se era para ser puta depois do namoro fracassado com o padre Sadi, que desse o rabo como todas as putas dão, como é de praxe no mercado, não viesse com conversa que não cabe a nenhuma puta vir, isso eu disse mil vezes nos últimos tempos em vão. Puta cobra o justo, o combinado, o cliente paga a quantia em dinheiro e ninguém mata, ninguém morre.
O primeiro erro foi cismar com o padre Sadi para marido. Depois, se deixar influenciar pelas ideias do mulato revoltado que quer mais é que tudo afunde e desabe.
Brígida deu para dizer de repente assim sem mais que o Brasil é violentíssimo e racista. Vá ao cinema e ao teatro (ela veio com essa para cima de mim), vá aos restaurantes e veja quantos negros tem lá sem contar os garçons. O negro no Brasil ainda continua andando só nas beiras!
E eu com isso se negro não entra, se lá no passado antes da princesa Isabel houve um crime?  Brígida nunca ligou para política, nunca esteve nem aí se não tem negro nenhum no cinema, se a plateia do teatro é tão branca.
Brígida foi para Brasília trabalhar no alto meretrício e servir a Esplanada porque a fábrica de biscoito do Brás ia entrar em concordata mais cedo ou mais tarde, ela tinha certeza que ia, e o padre não queria saber de casar, só trepar no Motel das Acácias.
Cirilo que nunca viu mulher nua na frente e não conhece a vida real não para de dizer para quem tem ouvido e saco que era líquido e certo, batata! Vida de puta é desgraçada e vil, o fim é uma coisa ordinária e vagabunda.

Quantas mais, então, com os seios siliconados jogados na entrada do terminal?  Quando retalharam mais uma, as coxas e os pés sem os dedos espalhados, os braços sem as mãos e a cabeça com hematomas no queixo e na testa, um olho arrancado, outro não? Outra prostituta morta e esparramada aos pedacinhos em que dia e mês de que ano, em que cidade? Em que manhã tão absurda quanto essa mais uma esquartejada e posta à vista dos pedestres de manhã aqui e acolá sobre um chão imundo?

 Mario Garrone

 

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Maurício Mellone

Como jornalista — tendo atuado em rádio, TV, jornal, revistas e assessoria de imprensa —, a palavra sempre foi minha matéria prima. No entanto, desde 2000 venho cultivando o plano B, ou seja, mantenho no meu velho PC um arquivo com meus escritos, que na verdade já era um pré-blog. Lá, deixo fluir a imaginação para que a linguagem inclusive ganhe novos contornos.


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