RSS FACEBOOK TWITTER

Sobre Destempero e Ódio, conto inédito do escritor Mario Garrone


Ilustração de Ricardo Castro

Ilustração de Ricardo Castro

 

Hoje pela manhã recebi um telefonema que me trouxe muita alegria. Era o meu amigo, o jornalista e escritor Mario Garrone, dizendo que havia enviado novo conto para que eu avaliasse para publicar aqui no blog. Como se fosse necessária alguma avaliação!
Como sempre, Mario nos brinda com outro conto inédito, de um enredo policial envolvente, em que mostra os bastidores de um crime bárbaro à travesti Maria Noronha. Com seu estilo próprio, Garrone narra sem demonstrar todos os detalhes da ação: traz diversas vozes, com suas visões de mundo, seus preconceitos, opiniões e assim o leitor vai construindo a cena do crime.
Um presente para quem gosta de mistério e, principalmente, de uma história bem contada. Aproveitando a chance, compartilho este presente que ganhei do meu amigo com todos os meus leitores, desejando um Natal de muita luz a todos!

 

 

Sobre Destempero e Ódio

Que todo travesti devia morrer, desaparecer da face da Terra (assim disse Valesca em fúria). Que Deus é contra, não poderia ser a favor do que é afronta e desvio, uma esculhambação tremenda com as normas, um circo de anomalia.

Mario Garrone

Escritor e jornalista Mario Garrone, autor de Pequeno Relato Sobre o Caos/Chiado Editora e O homem infeliz/Imago

A polícia apareceu na casa e não achou ninguém. Mas voltou. Voltaria quantas vezes fosse preciso. Voltou e interrogou, quis saber tudo. Em que lugar da cidade ela estava. Em que lugar e com quem. Não havia como não desconfiar, não acreditar que a Valesca estava atolada no troço se tinha falado para quem quisesse ouvir que a morte de todos os travestis deixaria o mundo mais limpo.
Dona Pilar defendeu a filha. Disse que assassinato de travesti, inclusive, nem era o caso de investigar com urgência, com pressa, há prioridades, há, tem que haver. Com tanta coisa mais grave para ir atrás, a polícia tinha obrigação de centrar toda a atenção nos bandidos que tornam a vida um inferno nas grandes cidades, gente de bem à mercê, refém de delinquente viciado em maconha e crack. Quem se importa (deu prosseguimento dona Pilar) com a morte de travestis? Muda o que na vida de alguém se um morre? Que contribuição eles dão à sociedade, ao bem-estar, ao aprimoramento humano, às ciências, às artes?
A mãe disse o que quis, mãe sempre diz o que quer, mas só isso não ia bastar, era pouco, não cabia a ela determinar a ação da polícia. Desqualificar os travestis em geral tinha lá o seu efeito, policial não gosta de travesti, delegado também não gosta nada, mas numa hora dessas a pessoa suspeita tem de dizer em detalhes onde estava no momento exato em que esfaquearam o corpo e atiraram no pescoço.
Se um travesti morre (disse dona Pilar quase aos gritos) é só um a menos a emporcalhar o mundo poluído, ainda ficam os outros pelas cidades andando à noite nas calçadas, afrontando as famílias na frente das casas (o que dizer para as crianças sobre aquelas figuras grotescas e vis? Porque as crianças mais cedo ou mais tarde perguntam, querem saber quem são aqueles seres estranhos e o que fazem seminus pelas ruas). A polícia (dona Pilar concluindo) tem de botar ordem nesse esculacho e proibir a baderna acintosa nos bairros bons e investigar quem rouba e mata gente de bem que trabalha e não tem mais sossego.
A favor de travesti muito pouca gente no mundo (isso aqui digo eu). Olhar com desprezo, com asco, com nojo é a praxe. A maioria não tolera nem se aproxima, uma aversão corriqueira, uma enorme desconfiança, um tal de achar que entre eles só o pecado, o ruim, a decadência, o lixo, o cocô. Não só a dona Pilar e a Vanesca soltando veneno. Muita gente, gente demais concordava com as duas e atiçava, queria ver sangue. Não adiantou a Cibele dizer para ir com calma com a raiva e o desprezo, que travesti também é coisa de Deus, Jesus olha por todos. Ninguém ia permitir que a Cibele se desse ao desplante. Era o cúmulo dos cúmulos (todos acharam) a Cibele tentar colocar Deus Pai dentro do esgoto.
O doutor Anacleto tentou explicar no começo, depois desistiu, alquebrou-se, ninguém queria saber de ouvir nada, não haveria explicação que resolvesse, ninguém ia aceitar que ele viesse com qualquer argumento. Numa hora daquela, só havia fúria, gana, indignação e revolta. O que ele tinha a dizer não interessava, justificativa nenhuma seria capaz de minimizar um pouquinho que fosse.  A felicidade à custa da dor não é coisa boa (disse em vão, mesmo assim às moscas o doutor Anacleto no início), não pode ser boa, não pode. Ninguém devia amar provocando tristeza, ninguém devia ser feliz se a felicidade machuca, se um usufrui e o outro pena. Não é certo um mundo em que a alegria de um é a dor permanente do outro, mesmo que isso sempre seja o que há, o que rola, cada um apenas atrás da sua parte, quase ninguém se importando se haverá sofrimento, se a paixão que um saboreia acarretará a outros só dor e vergonha.  Toda felicidade perde o valor se há dor, se o que dá contentamento a um a outro só aniquila e martiriza. Ele não queria ser a causa da lágrima, do infortúnio, do sofrimento e da raiva, não queria ser o que provoca decepção e mágoa, muito embora tenha vindo a ser aquele que trouxe toda a desordem para dentro da casa.

Foto 1: luzes na cidade

O negócio é que homem não presta (dona Pilar novamente a um passo do berro). Travesti é a escória da escória, é a ralé da ralé, sim senhor, isso é líquido e claro, há quase unânime consenso, mas iam fazer o que no mundo todos os travestis se não houvesse toda noite homens procurando mulheres com pau por aí na frente das casas? Se os homens casados voltassem direto para o lar depois do serviço, os travestis morreriam de fome, deixariam de sujar as ruas todas as noites, não haveria boate gay que desse conta de amparar todos nos shows de dublagem. Se os homens tivessem cabeça e brio (ainda dona Pilar), nunca mais trottoir, os travestis não andariam mais atrevida e desavergonhadamente nas calçadas, iam ter que se virar de outro jeito para não morrer secos à míngua. E ninguém ia querer travesti na recepção do escritório, no banco, na butique, não ia. Supermercado nenhum ia querer travesti dando o troco, colocando produto na prateleira, as escolas não gostam de travestis, os estudantes não querem de jeito nenhum colegas travestis na classe, os pais não admitem que os filhos tenham amizade ou conversem com travestis. Foder-se-iam todos na vida (dona Pilar exaltada!) se os homens casados parassem de pagar para trepar. Isso se os homens casados nunca mais, se eles, se nenhum mais fosse atrás, nenhum mais parasse o carro e abaixasse o vidro e chamasse. Se. Isso somente se eles, entende?
A polícia quis saber onde, em que lugar, fazendo exatamente o que na hora em que o sangue todo jorrando nas paredes da kitchenet. Tivesse Valesca permanecido calada, tivesse sido ela econômica nos comentários enfurecidos sobre os travestis como um todo e sobre um em particular, policial nenhum ia bater na porta, apertar campainha. Mas a Valesca disse para quem quisesse ouvir poucos dias antes que a Maria Noronha era o lixo do lixo, a privada. Se morresse era bom, se alguém matasse, se um tiro de revólver certeiro, se uma faca afiada, por que não se alguém?
A Maria Noronha não teve esse nome desde o começo por decisão da mãe e do pai. Até porque nasceu com pintinho e saco e sem útero. A Maria veio muitos anos depois. Inventou a Maria na juventude para deixar de ser homem, se vestir de mulher e dublar e dançar na boate. Joaquim de Miranda sim o nome real no documento, no RG, no cartão de crédito com que ela comprava todo mês um vestido, uma pulseira, um punhadinho de doce. Nenhum nome clichê de travesti ela quis para si, se negou. Talvez até por isso carreira curta na noite, uma criatura incomum, solitária, uma sofisticação deslocada, indesejada e malvista. A massa pagante de todas as horas quer outra coisa de dia e de noite. O respeitável público pagante quer sempre mais um pouquinho do mesmo. Quer deboche e risada, chanchada, escracho. Ninguém quer lá saber de requinte, arrojo, primor, delicadeza. Por que não Shirley, Walquíria, Samantha Jones? Por acaso queria ser mais do que as outras (os donos das boates impreterivelmente uma hora perguntavam)? Ela quis ser só Maria Noronha e cantar bonito com a orquestra (que nunca houve).
A polícia perguntou que grupo de oração era esse em que a Valesca rezava. É preciso ter álibi, ter testemunha que confirme onde se estava na hora em que alguém esfaqueou e deu o tiro no olho. Falar por falar não resolve se não houver alguém que garanta e dê crédito de que se estava com o terço na mão exatamente na hora em que o sangue se espalhou por toda a cama e as paredes.
Se tinha cabimento duvidarem da palavra da filha (dona Pilar um pouco alterada)! Imagine se a filha ia se sujar, cair na sarjeta, destruir a vida além do que já estava inteirinha. Nunca ninguém na família estivera envolvido em crime, assalto, morte assassina, sequestro, roubo, trapaça, trambique, antecedente nenhum entre os parentes. Nem sequer suicídio. Na família ninguém se matava!
O delegado foi inquirir o doutor Anacleto no hotel quatro-estrelas e encontrou um homem sem voz, um quase mendigo, dias sem banho, sem desodorante, sem aparecer no consultório, uma figura horrível tomando café da manhã no quarto, um cheiro de azedo no ar, sabonete e xampu sem uso no banheiro e nada de pasta de dente. Era como se o homem não tivesse mais língua na boca, desaprendido de falar, de contar onde é que ele estava na hora, fazendo o que no momento, na companhia de quem propriamente. Não resolvia nada ele apenas sussurrar, no momento em que o delegado esteve a ponto de perder toda paciência, que amava a Maria Noronha, amava sim, nunca tinha amado ninguém senão ela. Até então só respeito. Anos e anos de respeito, de consideração, de afinco pela família, suprindo dignamente e a contento todas as necessidades da esposa e dos filhos, mas amor, amor é outra coisa bem diferente!

Foto 2: luzes na cidade

Quem sabia de tudo era a Bebel do Zé Lima. Viu várias vezes, tirou informação, fuçou, ficou totalmente a par do negócio. Não quis se meter no começo, teve dúvida se devia, se contar era o certo, se se omitir era justo.
Seu Tide, o pai de Valesca, ficou de queixo caído quando soube. Enquanto a dona Pilar começou a falar sem parar da vergonha que era, que travesti não devia existir, que isso em nenhuma parte do mundo, seu Tide, parado, olhava coisa nenhuma, disperso, a esmo. Só mais para a frente é que, recomposto, novamente em si, vociferou com aquele bafo fedido de charuto que travesti chafurda e enlameia, espalha bosta pelos ares. Disse então que só escarrando na cara do doutor Anacleto e usando a espingarda, genro assim desonra e avacalha a família. Tinha o que na cabeça o Anacleto? Uma escapadela vez ou outra com uma puta vá lá, isso quase todo homem, isso quase em todo casamento, há consenso, há, mas, alto lá, como é que é, Anacleto, onde é que já se viu comer e sustentar traveco vagabundo?
Sem saber nadinha da Maria Noronha, se ela acreditava em Deus, se era devota de santo, se via algum sentido na existência, se era boa com alguém, se ajudava doente ou gente desesperada, se visitava hospitais, se fazia algum bem para as crianças (isso digo eu, só eu. Sim, a Cibele talvez também diga), apenas ouviram-se injúria, difamação, ninguém viu nela senão a puta aproveitadora, embora puta só no começo, ela nunca gostou de ser puta, não tinha nascido para isso, vida de puta exige demais, só serve mesmo para quem gosta indiscriminadamente de dar e comer, porque os homens querem sim ser comidos e a Maria Noronha não gostava de comer qualquer homem. Gostava de dar não para todos, de preferência para um. Um homem que fosse dela, ainda que casado, e que a livrasse da sina de fazer trottoir, porque aos travestis neste mundo parece que só é permitido dar e comer ou dublar na boate.
Grupo de oração, sim, sabe, conhece (Valesca impaciente diante do delegado)? Com padre e freira no meio rezando junto, pedindo juízo e paz para o mundo, que o mundo anda de um jeito que só não saindo mais de casa, um desrespeito com mulher de família, um desacato absurdo, policial mancomunado com traficante, o perigo todo que há por aí, ninguém mais com segurança de ir e voltar, é um deus nos acuda tão feio, uma violência absurda, uma carnificina medonha, um montão de carro blindado com vidro escuro que nunca abre.  Mas para rezar ela saía, enfrentava todo o mal. Na hora do crime controverso do travesti ela lá, sim, na oração vespertina pertinho do padre e da freira, rezando para Deus dar um basta na matança e no ódio.

Foto 2: arco-íris

Lero-lero demais com essa história sendo o cadáver da laia que era (dona Pilar um tom acima do razoável). Morte de travesti é um alívio. A polícia não sabe focar no que é grave e premente, um banditismo horroroso, gente de bem nas mãos de assaltante, trabalhador correndo perigo nos trens, nas calçadas, uma falta de sossego tremenda, mães inseguras e aflitas dentro dos ônibus, maconheiros à solta, puteiros funcionando à luz do dia, a moral lá no chão, um medo generalizado da porra em São Paulo. E a polícia no pé da Valesca (dona Pilar saindo um pouquinho de si)?!
Da Maria Noronha se soube que gostava de cantar e compunha canções melodiosas (todas inéditas) influenciada pelas árias do Puccini, gastava sem comedimento no cartão de crédito e pagava as contas com o dinheiro do doutor Anacleto, o aluguel da kitchenet, as compras do supermercado, o plano de saúde normal e o odontológico. Disso sabia a Bebel, só ela e o Zé Lima. Às vezes, Bebel via os dois dentro do carro, nas calçadas chupando um sorvete, outras no restaurante comendo o prato do dia, olhando vitrines, observando o passeio regular dos cachorros. Bebel achou que devia, aquilo era o cúmulo de ver, um marido não tinha o direito, sentia que precisava, estava tão dividida, era uma coisa difícil, tão difícil para ela, uma noite todinha de insônia quando decidiu que tinha esperado demais para contar. A vida dos outros é dos outros, mas tem coisa que a gente vai ficar vendo e não fala, vai ser testemunha até quando e não conta (perguntou Bebel a si mesma e ao Zé Lima quando decidiu que era hora)? Nem vontade de tomar café com leite e comer um pãozinho francês com patê de azeitona ela teve, um gosto amargo na boca, um peso por dentro, uma dor no quadril e nas juntas, um medo do que poderia vir depois que contasse, da consequência, da reação da Valesca. Umas pontadas nas costas, nos ombros, o coração apertado, as mãos frias, umas fisgadas nas coxas. Tudo doendo no corpo misteriosamente para que ela ficasse e não fosse, deitasse na cama e dormisse? Para que não saísse à rua à procura de táxi e desistisse? Para que não viesse o que veio, o que passou a vir em cascata imediatamente depois do momento em que a Valesca lhe abriu a porta da casa e ela entrou acompanhada da desgraça?

Mario Garrone

Fotos: divulgação

, , ,

Maurício Mellone

Como jornalista — tendo atuado em rádio, TV, jornal, revistas e assessoria de imprensa —, a palavra sempre foi minha matéria prima. No entanto, desde 2000 venho cultivando o plano B, ou seja, mantenho no meu velho PC um arquivo com meus escritos, que na verdade já era um pré-blog. Lá, deixo fluir a imaginação para que a linguagem inclusive ganhe novos contornos.


Ver todos os posts de Maurício Mellone »

6 Comentários para “Sobre Destempero e Ódio, conto inédito do escritor Mario Garrone”

  1. Mario Garrone Says:

    Oi, Maurício. Acho meio constrangedor entrar aqui para agradecer os elogios seus, da Dinah e do Marcelo, mas vamos lá: obrigado por todas as palavras de vocês três. Até mais.

    Mario

    responder

  2. Dinah Sales de Olive Says:

    Maurício,
    Belo conto policial!
    Se me perguntarem:’O que você vai ser quando crescer?’, eu respondo: Quero escrever com paixão e estilo, como o Mario Garrone!!!

    beijo,
    Dinah

    responder

  3. Marcelo Brettas Says:

    Bom Maurício, meu velho. Parabéns por abrir espaço e nos brindar com o elegante texto do Mário.
    Garrone, já te disse uma vez e repito, sou fã do seu texto desde os tempos da faculdade de jornalismo. Enquanto muitos buscavam os holofotes, você ficava no seu canto e recato, aprimorando a escrita. Parabéns!

    responder

    • Maurício Mellone Says:

      Marcelo:
      Sem dúvida o Mario nunca foi dos holofotes e que bom
      que ele se esquivou até da linguagem jornalística.
      Dedicou e dedica todo seu tempo para a literatura,
      para nosso deleite.
      Muito obrigado pela visita e volte sempre!
      E terei a maior honra em te receber aqui com suas palavras!
      Este espaço é nosso!
      bjs e um 2013 de SORTE para todos nós!

      responder

Deixe uma resposta